30 maio, 2010

a amplitude do sol

Watching the sunset
© Julie Aucoin


hoje vou assistir ao pôr-do-sol como se pudesse repetir o regresso de um outro dia...quero fundir os meus olhos no horizonte para apaziguar a sede onde o sol é cântaro, leve brasa.....tenho no peito a cor do sol a pôr-se.....assistirei com a boca focada na ponte a todos os instantes em que os sinais confluem ....já sem forma, atentos à púrpura nascente.......hoje vou inclinar-me ao pôr -do-Sol e erguer a manhã ampla, a matéria luminosa de um outro dia...


Gisela Ramos Rosa, 30-05-2010

29 maio, 2010

a flor que seguras pode ser o teu rosto

After a shower
© SNA




hoje amanheci com uma flor na mão
não sei se as pétalas eram dedos ou sonhos que me afagavam o pensamento
hoje amanheci a luz de uma rosa senti uma mulher e a caligrafia de um rosto


Gisela Ramos Rosa, 29-05-2010


22 maio, 2010

a magia da palavra paz

Schhh
© Simon Cederquist




Sente a palavra paz ela existe porque a podemos sentir. ama e verás como a paz se prolonga. sei que a paz pode existir por dentro como se fosse um filho que trazemos ao mundo. ou um fruto que colhemos no tempo da viagem que em nós ocorre . sabes que caminhar é um sinal de desapego e que só nesse percurso existe a liberdade? venho pedir-te que guardes o segredo da palavra paz para sentires a magia do mundo e a leves o mais longe que puderes ...à consciência pura....ao estado intemporal, ao desejo simbólico da perfeição...escolhendo...regressa à inocência aceitando o cálice que transforma o corpo na confiança e no amor totais....


Gisela Ramos Rosa 22-05-2010

19 maio, 2010

as mãos podem ser o voo


In Safe Hands
© Sainty



as mãos podem segurar
as asas um impulso uma queda

as mãos podem rever os poros
e deslizar na pele

as mãos podem revelar o fogo
como se um anjo tocasse a matéria

as mãos podem ser o voo



Gisela Ramos Rosa 20-05-2010

18 maio, 2010

a paisagem que descubro


Good evening tanzania
© Amnon Eichelberg

13 maio, 2010

a textura do mundo

Armenian texture
© Taher Sadati


Gosto de sentir a espessura das formas com as quais revelamos o mundo. coloco os meus dedos no relevo de cada símbolo e encontro o molde e os ramos com que projecto a representação.... se olhares com cuidado perceberás que a superfície é sempre o nada de onde parte a (con)figuração ...e poderemos chamar-lhe uma folha com nomes ou mesmo o percurso da pedra onde as linhas se fundaram inaugurando o espaço.... posso dizer-te que encaro o alfabeto como a chave da memória que os corpos engendraram....por isso, sempre que posso procuro romper esse véu com os sentidos... e o meu corpo passa a ser um instrumento de leitura desse outro corpo abstracto... sonho e interpretação tocando as noções primevas como se elas fossem a morada dos actos harmoniosos em que se firma o mundo...


Gisela Ramos Rosa, 13-05-2010


09 maio, 2010

repara como os olhos são astros voltados para o sol


Smear of The Gala
© Fritz Charles A. Efenio
"Sinulog Festival at Kabankalan City, Negros Occidental Philippines. It is a festival transforms the third Sunday of January of every year into a day of riotous revelry as dancers painted in black soot stamp to the wild beating of drums."


...se nos rostos encontrássemos apenas a claridade não saberíamos reconhecer a dinâmica subtil dos ciclos que cruzam a face. impossível seria escrever o poema na superfície absoluta e completa. prefiro acreditar na incompletude da pele que lentamente se (trans)forma...na boca, pulso da voz que me projecta.....nos olhos jangadas de silêncio que acolhem retendo ou projectando a imagem...esferas onde as formas se dinamizam ...repara como os olhos são astros voltados para o sol... sementes do mundo que revelam o centro e o processo.... é sempre tão improvável a construção de um rosto se nele não integrarmos a possibilidade de um relâmpago alterar a sua forma....ou se nele não conseguirmos encontrar o alabastro ou o perfume e a seiva das madeiras antigas, do fogo esse lume que amanhece dentro de nós....

Gisela Ramos Rosa 09-05-2010

04 maio, 2010

dos mapas que trazemos

Eagle Tree
© Mandy Schoch


“Sermos totalmente humanos torna-nos reais”

Deepak Chopra, a sabedoria do mago, p. 54


procuro palavras na língua para poder unir os ramos, das árvores em que nos tornámos...já antes havia inscrito nos muros a morada onde o silêncio me ensinou a escrever o nome e a reconhecer o mistério do que é transitório.... gostava de poder dar-te as minhas mãos para cruzarmos as linhas e os lugares sobre a luz ......descalça sentiria as folhas macias do livro...e na superfície bordaria o odor tranquilo do sol....a traçar o horizonte dos sítios e dos mapas que trazemos....


...concordas comigo quando digo que os olhos dão vida a tudo o que vemos por isso acariciemos lentamente a construção do nosso rosto, dentro da vida, como se ele fosse testemunha e percepção da inocência com que olhamos o mundo...

Gisela Ramos Rosa 04-05-2010

01 maio, 2010

não te prendas ao chão

peaceful moment (Praying woman)
© Robert

Se me olhares não vejas uma mulher de costas....transpareço através do véu azul apesar do lugar, apesar de tudo. Estou direccionada para uma porta antiga que não se fecha por completo... encontro nela o sítio onde colocar a mão esquerda e também a possibilidade de repousar com a tranquilidade de uma prece...sem que nada me importune.... sempre que aqui venho recomeço a viagem sobre a luz ...destaco as cores porque as sinto entrar como carreiros na alma...através dos olhos....não te prendas ao chão....repara no tecido que me cobre... é suficientemente claro para transformar os teus olhos numa ilha....e o meu corpo num lugar.....

Gisela Ramos Rosa, 01-05-2010