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18 dezembro, 2009

todos nós somos hóspedes da vida*



"Todos nós somos hóspedes da vida. Não há nenhum ser humano que saiba o significado da sua criação, excepto ao nível mais primitivo e biológico. Não há nenhum homem nem nenhuma mulher que saiba qual o objectivo (se é que existe...), qual o significado da existência. Porque é que há algo em vez de nada? Porque é que eu existo? Somos hóspedes deste pequeno planeta, de uma urdidura infinitamente complexa, quiçá fortuita, de processos e mutações evolutivas que, em inúmeros estádios, poderia ter seguido um outro curso ou testemunhado a sua extinção. Acabámos, aliás, por nos tornar hóspedes vândalos, produzindo lixo, explorando e destruindo outras espécies e recursos. Estamos a transformar rapidamente este ambiente extraordinariamente belo e intrincadamente perfeito, e inclusive o espaço sideral, numa lixeira venenosa. Há caixotes de lixo na Lua. Por mais inspirado que seja o movimento ecológico....

camp of afghans
© ali.noohi

Todavia, este vândalo não deixa de ser um hóspede numa casa do ser que não construiu e cujo desígnio e arquitectura lhe escapam.

Agora temos de aprender a ser hóspedes uns dos outros naquilo que resta desta terra sobrepovoada e degradada. As nossas guerras, as nossas limpezas étnicas, os arsenais, de massacre que prosperam mesmo nos estados mais pobres, são territoriais. As ideologias e os ódios mútuos a que dão origem são territórios de mente. Desde sempre os homens têm-se atacado uns aos outros por causa de um pedaço de terra, sob diferentes trapos coloridos empunhados como bandeiras, a propósito de ténues diferenças na língua e no dialecto.
A História tem assistido a um investimento interminável de ódios recíprocos por motivos bastante mesquinhos e irracionais. Por uma qualquer inspiração lunática, certas comunidades, por exemplo nos Balcãs ou em África, são capazes de explodir em
apartheid e genocídio depois de terem vivido juntas durante séculos ou décadas. As árvores têm raízes, os seres humanos têm pernas. Com as quais podem atravessar o arame farpado de fronteiras idiotas, com as quais podem visitar e viver como hóspedes entre o resto da humanidade. Existe uma simbologia fundamental nas lendas que abundam na Bíblia, mas também nas mitologias gregas ou outras, do estranho que ao sol-posto bate ao portão após a sua viagem. Trata-se frequentemente do toque de um deus ou de um emissário divino que põe à prova a nossa capacidade de acolhimento. Quero acreditar que esses visitantes são os verdadeiros seres humanos em que devemos tentar tornar-nos se queremos sobreviver..."


George Steiner, Errata: revisões de uma vida, pp. 71-72

* expressão de George Steiner

08 dezembro, 2009

todo o ser vivo ou todo o som contém uma cifra do universo *

Rice Paddy in Myanmar
© Alessandro Della Casa

João Medina dá-nos a conhecer no Jornal de Letras o mais recente livro de George Steiner, George Steiner at the New Yorker(2009), uma colectânea de 30 anos de crónicas literárias. Encantei-me quando a dada altura Medina remete-nos para: "o longo texto crítico que Steiner dedica a Jorge Luís Borges (p.162-175), um espírito - e um caso - que não podia deixar de atrair e fascinar Steiner, até pelas suas comuns preocupações cabalistas sabe-se que o argentino teve um aprendizado de cabala, quando residia em Genebra, o que lhe permitiu imaginar aquela prodigiosa metáfora do Aleph, localizado algures, numa escadaria na Rua Garay em Buenos Aires, a partir da ideia de que todo o ser vivo ou todo o som contém uma cifra do universo como um todo (...) e cita Steiner:

"O Universo é um grande Livro, e cada fenómeno natural e mental carrega consigo significado. O mundo é um imenso alfabecto. A realidade física, os factos da história, tudo o que os homens tenham criado, são como sílabas duma mensagem constante. Estamos rodeados duma rede ilimitada de significado, cuja verdadeira fibra carrega um pulsar de ser e conduz, por fim, ao que Borges, na sua enigmática história, chama Aleph (...). É o espaço dos espaços, a esfera cabalística cujo centro está em toda a parte e a sua circunferência em parte nenhuma; é a roda da visão de Ezequiel mas também o tranquilo passarinho do misticismo sufi, no qual de alguma maneira se contêm todos os pássaros."

Refere, ainda, João Medina, "Steiner sublinha a ideia borgiana de que o universo é uma Biblioteca, que contém todos os livros e todas as línguas"...


George Steiner: um crítico prodigioso, crónica de João Medina em Jornal de Letras, 2-15 Dezembro de 2009, p. 43

*O título é da autoria de João Medina