07 Fevereiro, 2010

Procuro o lento cimo da transformação*

© Przemyslaw Wielicki


Procuro o lento cimo da transformação

Daniel Faria, Poesia, p. 256



sabes, as casas podem ser do nosso tamanho
quando as olhamos a partir do branco
não sei se compreendes o quero dizer
quando enuncio a claridade

sabes, é como se fosse a partir desse eixo
que tudo se concebe, a perspectiva o desenho
a construção

agora ainda não, talvez amanhã te possa contar
como a luz pode integrar as mãos
e fundar nos olhos os efeitos da forma

e dizes-me, o branco o desenho a feição?
sim, esse instante é o intervalo entre tudo e nada
o momento Aberto* em que urge a criação


Gisela Ramos Rosa, 7-02-2010

06 Fevereiro, 2010

Je suis fait de tout ce que j´ai vu*

Pondering the Future
© Colmar Wocke





Em Fevereiro de 2008 o professor José Machado Pais, perguntou-me se queria colaborar num artigo com ele sobre o cinema e os jovens. Devo referir que a minha enorme admiração por este grande senhor da sociologia que encontrei quando caminhava na pesquisa da minha tese de mestrado, não se prende apenas com as suas qualidades académicas mas com a sua postura humana perante a Vida e as Pessoas, na forma como se relaciona com estas e como as conta no quotidiano das relações sociais, fundadas em representações, com a minúcia e elevação serenas de um sábio, mostrando-nos Vidas Autênticas, nos seus artigos, nas suas conferências, nos seus livros, na sua fala. Aceitei este convite sem hesitar sabendo que a responsabilidade era enorme, mas sabendo também que teria a possibilidade de (re)velar e expressar em conjunto, a quatro mãos com todo o prazer das mãos (escrita) e da alma. Assim nasceu um texto com o título De uma Estética do Consumo a uma Estética do Crime que foi publicado na Colectânea A Juventude vai ao Cinema (editora Autêntica, 2009), (ver aqui) - Brasil - em conjunto com outros tantos textos de outros investigadores do mundo, sobre o mesmo tema. Esta publicação tem organização da professora Inês Assunção de Castro Teixeira e dos professores José de Souza Miguel Lopes e Juarez Dayrell (do Observatório Jovem).

Sinopse da editora sobre Colectânea:

"Nesta coletânea estão presentes as mais diversas formas de ser, de estar e de se viver a juventude, juventudes muitas, sob o olhar de vários cineastas, de diferentes países e épocas. A obra contém vários olhares e sensibilidades, várias questões e reflexões de grandes diretores do cinema mundial, que buscaram observar, escutar, sentir, pensar, dialogar com as juventudes, tentando compreendê-la, dar-lhes visibilidade e registrá-la com suas câmeras. E assim como os diretores das obras cinematográficas escolhidas para comporem a coletânea, os autores/as dos textos, nossos convidados/as, pesquisadores do campo da educação e/ou da juventude, oferecem-nos diferentes planos e prismas, idéias e palavras, perspectivas teórico-analíticas e narrativas em seus trabalhos sobre os filmes, compondo, a partir do elenco dos filmes escolhidos, um caleidoscópio de figurações, imagens, luzes e sombras, no qual a juventude é o centro. Partimos dos princípios gerais da Coleção, destinada prioritariamente a educadores/as, entendendo o cinema como arte e pensando largo sobre suas possibilidades na educação e na escola. Nesse sentido, propomos que nelas esteja presente, não apenas como passatempo ou ocupação de tempo, não ou somente como uma linguagem e não somente como recurso pedagógico e instrumentalização didática, mas como uma arte que nos faculta o encontro com a alteridade."



* o título desta edição é da autoria de Matisse

04 Fevereiro, 2010

Como se a sede me ensinasse a caminhar sobre a palavra *


Trago os instrumentos do fogo
ponho-os na boca
ponho-os no coração

Trago os instrumentos da respiração
- Uma montanha, uma árvore que lhe dá abrigo -
E suspendo-os nos ramos como pinhas que dão sombra
Um lugar fresco para os deportados de Sião nas margens

Trouxe também os instrumentos dos mineiros
Uma luz na cabeça voltada para o pensamento
Um olhar profundo
O modo prisioneiro de virem livremente para fora

E trago todos os instrumentos na circulação do sangue e na ocupação
(permanente

Das mãos
Para o instrumento difícil
do silêncio


Daniel Faria, Poesia




O título desta edição é um verso de Daniel Faria, extraído de Poesia, p. 324

30 Janeiro, 2010

quando o caminho é um rebento que agita e leva

© Fernand Hick


A Árvore foi a forma de te ver
e desci para abrir a casa.

Daniel Faria, Se fores pelo centro de ti mesmo, p. 167



Quando o caminho
é um grão que desenha o movimento
e com os seus passos lentos não apela o abismo
ou a vertigem dos que persistem na roda da matéria

quando o caminho é um rio que se prolonga
restituindo um novo olhar sobre a Casa
e persiste escrevendo ondulações sobre o espaço
nos ramos das árvores nas janelas nos muros
em redor do coração* de quem sente

quando o caminho é um rebento que agita e leva
a raiz para um lugar sem fronteiras enunciadas

o Ser é a Casa um espaço
que flutua
passagem Paixão ou Alma onde as pedras
se elevam como escada
para a herança
das árvores que queremos abraçar



Gisela Ramos Rosa, 30 de Janeiro de 2010

23 Janeiro, 2010

com as palavras acaricio o Sol

Sunrays
© Gary Pope



com as palavras acaricio o Sol
e os gestos nascem
como os da corola de um girassol



Gisela Ramos Rosa, Vasos Comunicantes, Diálogo poético com António Ramos Rosa, p. 113

20 Janeiro, 2010

O sin materia tal vez,*



egrets
© Shlomi Nissim


Aire: nada, casi nada

O con un ser muy secreto,

O sin materia tal vez,

Nada, casi nada: cielo (…)


Aire, Jorge Guillén, p. 106


17 Janeiro, 2010

a palavra, a fábula, o mundo

Escrevo para entrever o que seria o mundo
liberto de si mesmo E sem imaginar
pouso no limite entre a luz e a sombra
para me oferecer à nudez de um começo

Há palavras que esperam na sombra contra o muro
para serem a felicidade de uma folha aberta
sem mais sentido que o perpassar da brisa
mas que abrem o mundo e de doçura tremem

Não é preciso polir a madeira das palavras
ou talhá-las como se fossem seixos
Há um lugar para elas no branco e não numa alfombra de
ouro
e quanto mais frágeis mais frescura exalam
porque elas são a fábula do mundo quando a água o embala


António Ramos Rosa, As palavras, p. 148