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06 março, 2010

Como a criança que quer voltar ao chão*

© Cyrille Andres


Há uma distância segura entre mim e as primeiras luzes que vi ao nascer. A matéria foi ganhando forma à medida que o meu nome cresceu e passou pelos lugares, pelas estradas sucessivas que fui encontrando. Imaginei linhas onde sonhos decisivos uniram o sono e a vigília. Nas manhãs o leite e o fogo como a seiva que à tona desliza ao andar. À noite a primeira morte foi sempre desde o começo este brilho que em mim se exilou. Não sei como explicar-te tantas coisas pela primeira vez:

e se me perguntares como tenho os pulsos neste momento em que escrevo, dir-te-ei que as correntes libertaram todas as marcas do deserto. Sim, as correntes foram sementes da prisão de onde as minhas asas se soltaram. Quando os olhos e a sede desenhavam circunferências e apenas a saída era o voo que rompia a placenta como um golpe de uma estação a florir.... para encontrar um outro lugar ou afluente onde as minhas mãos se uniram, já com a palavra fruto, foi preciso que uma escrita antiga me lembrasse a chave e o segredo dessa longa travessia.

Desculpa se me inclinei “como a criança que quer voltar ao chão” (Daniel Faria, Poesia, p. 241)

Gisela Ramos Rosa, 06-03-2010

27 fevereiro, 2010

na minha língua há um sol

Dot at the end of day
© Matej Baco


Há um sol que se levanta e se põe

"No meu corpo como um eixo"* (Daniel Faria, Poesia)



tenho a língua suspensa nas margens da página

sinto-a como uma barca que embala

sílabas afectos densas utopias


procuro-a cerzida de mel e água e deslizo

ao desenhar janelas asas pontes e gaivotas



tenho a língua suspensa nas margens

de um sabor longínquo de saliva e pétalas

onde busco a palavra e o pão


há gestos na língua onde encontro um sol

arquitecto do sal do sangue da sombra

em que esbato sentenças opacas


tenho ainda uma rosa e um cravo na língua

com que teço os filamentos do verbo

e reclamo o mistério da fala


Gisela Ramos Rosa, 27-02-2010


04 fevereiro, 2010

Como se a sede me ensinasse a caminhar sobre a palavra *


Trago os instrumentos do fogo
ponho-os na boca
ponho-os no coração

Trago os instrumentos da respiração
- Uma montanha, uma árvore que lhe dá abrigo -
E suspendo-os nos ramos como pinhas que dão sombra
Um lugar fresco para os deportados de Sião nas margens

Trouxe também os instrumentos dos mineiros
Uma luz na cabeça voltada para o pensamento
Um olhar profundo
O modo prisioneiro de virem livremente para fora

E trago todos os instrumentos na circulação do sangue e na ocupação
(permanente

Das mãos
Para o instrumento difícil
do silêncio


Daniel Faria, Poesia




O título desta edição é um verso de Daniel Faria, extraído de Poesia, p. 324

31 outubro, 2009

Sim. Agora posso explicar-te o mistério das águas.




Prometo-te a palma da minha mão para a escrita.
Cerca-a de magnólias, cerca-me. Podes fechar a escrita
No interior da mão ou na boca dos livros
Podes esquecê-la ou libertá-la dos mil botões
Que ela sopra no interior dos homens.
Podes mandá-la àqueles que mais amas
Ou como pétalas e mensagens nas anilhas das aves
Aos teus próprios inimigos.
Podes desarmá-la para propagares as chamas.
Dou-te, como desde sempre, o poder
De escreveres na pele da minha mão
As promessas que te fiz. Sabes que existo
E que vou repetir-te todas as coisas outra vez.

As estações, por exemplo - não sou o único que o digo -,
Não rodam à maneira dos carrosséis no largo. No Outono
A magnólia é pensativa como o homem
Que te olha por detrás da janela onde te escrevo.
No inverno os vidros vão embaciando - aproxima
A tua mão da paisagem que resta
Como se fora o lado do verbo que encarnou. Repara
No banco de pedra - ele está
Sobre ti.

Reading
© Ardian Zuehry

Tu és a criança sentada
Que olha o céu. Há um tesouro
No céu - um coração novo. Reconheces
A magnólia estelar? O interstício solar
Da pupila celeste? Ela está sobre ti
E contempla - é verdade que é pelas lágrimas
Que começam as visões.
Sim. Agora posso explicar-te o mistério das águas.
Debruça-te como ele quando escreveu no chão
Irás entender - elas jorram das palavras.


Daniel Faria, em Poesia, pp.334,335

09 julho, 2009

a face dos signos















Guarda a manhã
Tudo o mais se pode tresmalhar

Porque tu és o meio da manhã
O ponto mais alto da luz
Em explosão

Daniel Faria, Poesia, p. 80










Desenho de António Ramos Rosa, 2005

12 maio, 2009

Apesar de nós.

Rosa príncipe negro, fotografia de Gisela Rosa, Maio de 2009


Sabes leitor, que estamos na mesma página
E aproveito o facto de teres chegado agora
Para te explicar como vejo o crescer de uma magnólia.
A magnólia cresce na terra que pisas - podes pensar
Que digo alguma coisa não necessária, mas podia ter-te dito, acredita.
Que a magnólia te cresce como um livro entre as mãos. Ou melhor,
Que a magnólia - e essa é a verdade - cresce sempre
Apesar de nós.
Esta raiz para a palavra que ela lançou no poema
Pode bem significar que no ramo que ficar desse lado
A flor que se abrir é já um pouco de ti. E a flor que te estendo,
Mesmo que a recuses
Nunca a poderei conhecer, nem jamais, por muito que a ame,
A colherei.

A magnólia estende contra a minha escrita a tua sombra
E eu toco na sombra da magnólia como se pegasse na tua mão.

Daniel Faria, em Dos líquidos


* O título é um verso do poem de Daniel Faria...

15 fevereiro, 2009

Uma caligrafia que me olha

Gisela Rosa, tinta da china em papel, Fev 2009


“Desço à escritura como os veados aos salmos”
Daniel Faria


Tenho um girassol e uma mulher
nas escarpas da casa
e um relógio que separa os braços
das árvores que me avistam
em movimentos cadenciados
num centro de silêncios contados
num abraço que assinala o Sol
que através dos rostos transparece

quantas imagens de uma caligrafia
que me olha como se tudo o que vejo
me vê e me percorre como se eu fosse
uma superfície translúcida

estou entre tudo e nada
atravesso a sombra das cinzas
e cultivo os meus passos
perto dos arbustos e das árvores
que se propagam com o canto das aves

entro inteira na sombra dançarina
neste ritmo cadenciado que me oferece
a leve sensação de uma dança
na fonte de um corpo
que se escreve e se inventa

Gisela Rosa

13 janeiro, 2009

Nas margens do rio, do tempo

fotografia de gisela rosa, 2008


“Nas margens dos rios imaginando pontes”
Daniel Faria



Nas margens reinventamos
qualquer espaço sem nunca
nos deixarmos deter por ele

somos caracteres em trânsito
na página que principia
e acrescenta símbolos à matéria

nesse oásis branco a paisagem
da montanha do cume da corola
e das coisas como chamas

nas mãos o fluxo das fibras
encadeadas em lentas contracções
filamentos que tecem fonemas
com ditongos breves

cordas que seguramos na escalada
amparados por bambus ao vento
silêncios que contemplamos
no timbre do tempo

gisela rosa