Mostrar mensagens com a etiqueta Fabio Giannelli. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Fabio Giannelli. Mostrar todas as mensagens

20 setembro, 2009

por onde o ser flui

between you and me
© Fabio Giannelli

Zona secreta, solidão onde se refugiam os seres - e as coisas -, é ela que dá beleza à rua: por exemplo, se for sentado basta olhar pela janela. A rua cede o que o autocarro devassa. Sigo demasiado depressa para ter tempo de reter rostos ou gestos, a velocidade exige do meu olhar igual velocidade, e por isso nem um rosto, um corpo, ou atitude sequer, me esperam: tudo está ali a nu. Registo: um homem enorme, curvado, muito magro, peito escavado, óculos, o nariz comprido; uma dona-de-casa gorda caminha lentamente, pesada, triste; um velho sem graça, uma árvore solitária, ao lado outra árvore solitária, e outra...; um empregado, outro, uma multidão de empregados, a cidade inteira cheia de empregados curvados, todos juntos num pormenor que os meus olhos registam: bocas crispadas, ombros caídos...uma a uma, talvez devido à velocidade dos meus olhos e do veículo, as suas atitudes ficam rabiscadas tão depressa, tão rápido surpreendidas em seu arabesco, que cada ente é-me revelado no que tem de novo e insubstituível - invaravelmente uma ferida - graças à solidão onde essa ferida os coloca e eles mal reconhecem, se bem que todo o seu ser aí flua. Atravesso assim uma cidade esboçada por Rembrandt, com cada qual e cada coisa fixos numa verdade que dispensa beleza plástica. A cidade feita de solidão.....solidão como eu a entendo, não designa estatuto de miséria mas secreta soberania, nem profunda incomunicabilidade mas conhecimento mais ou menos obscuro de uma singularidade intocável.


Jean Genet, in O Estudio de Alberto Giacometti, pp. 34,-35