31 maio, 2009

das paixões, da pétala


Gisela Rosa, Rosa "príncipe negro", Maio de 2009



aprende a falar - diz
a rosa: escreve de noite
e que o meu múltiplo sol
te guie inúmeros
os caminhos, põe-te numa sala
com a luz apagada
onde chegue acesa
a de uma outra, e
frágil,
ao papel que para ela
voltas, então, falas
das paixões, da pétala
que cai no interior
do coração
e navega na sombra do
sangue,
de assombro em
assombro.

Manuel Gusmão
de Dois Sóis, A Rosa - A arquitectura do mundo


* o título foi retirado de um verso do poema de Manuel Gusmão..

26 maio, 2009

um lugar fora do tempo


Reflections, Omar Gencal, em http://1x.com/photos/nature/24353/


Contra el bulicio invento la Palabra, libertad que se
inventa y me inventa cada día.


Octávio Paz


Naquele caminho avisto pela manhã
o estuário do Tejo a desaguar no mar
o olhar ondula no horizonte das gaivotas
e nos rostos que se cruzam silenciosos
prisioneiros de pensamentos

rumo à rua mais íngreme meus passos caminham
para uma porta paralela do tempo
onde há uma praça com um lento jardim verde
e no seu centro minha alma vagueia sem peso
as árvores antigas dão guarida às rolas
e nas ramagens mais extensas os esquilos cor de fogo
pulam em movimentos graciosos

na casa encontro o lugar de um silêncio
as paredes articulam vidas em trânsito
e as árvores transparecem amarelas vistas de dentro

na casa o silêncio é um lugar que conquista
as portas que se abrem para o corredor
e ao fundo entro na portada que me leva
à espiral da linguagem à suspensão do tempo
onde não há relógios que confiram o valor
da magia encontrada nas mãos de um poeta

Gisela Rosa, Vasos Comunicantes Diálogo Poético com António Ramos Rosa, p.75, 2006.

23 maio, 2009

sou para ti uma língua que respira


Keith Haring, acrilic on canvas, 1984


Gisela tu és filha da terra e irradias
pelo desejo de
seres um astro vivo de uma sede singular
imaginária no teu sangue enevoado
imediata pela ferida verde da tua voz
e pelo verbo
de uma serpente esguia
que une o sentido
à inocência longínqua de um incerto enigma

Gisela
o poema é uma estranheza
uma diferença extrema e indiferente
entre um grito e uma sombra
o esplendor de um fruto de um rio branco
em cada palavra o timbre de uma pedra
o indivisível timbre de uma pedra
e a chama de um vento de uma sede irreparável

António Ramos Rosa, Vasos Comunicantes Diálogo poético com Gisela Rosa, p. 40, 2006


* o título deste post é um verso de António Ramos Rosa, Vasos Comunicantes, p. 102.

19 maio, 2009

e é nesse lugar ínfimo


Joan Miró, Cantic del sol, 1975


Primavera primeira


estremeço desde o princípio do meu rosto
desde o momento em que sorri e me sorriram
e é nesse lugar ínfimo que suspendo todas as palavras
que fecho os olhos e sinto a frescura de todas as águas
o oceano que cessa e atende o esvoaçar da primavera

é a primeira primavera de todos os outonos
é aqui que em silêncio se bordam os calendários
dias entre dias e sobre dias e as memórias que escapam
e não mais se alcançam se não nos tornamos menores
— no futuro não há esquecimento nem segredos
cada coração guarda apenas o que for mais comum


Vasco Gato, Um Mover de Mão, Assírio & Alvim, Lisboa, 2000

*O título foi retirado de um verso do poema de Vasco Gato
.

15 maio, 2009

O encontro



Paix, Peace, Frieden, Paz, Calligraphie Lassad Metoui


Eros e Psique


Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.

A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera.
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado.
Ele dela é ignorado.
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino -
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E, vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora.

E inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.


Fernando Pessoa,
8-7-1933, publicado in Presença nºs 41 e 42, Coimbra, Maio de 1934
(retirado do livro de José Manuel Anes, Fernando Pessoa e os Mundos Esotéricos, p.p. 182-183).

12 maio, 2009

Apesar de nós.

Rosa príncipe negro, fotografia de Gisela Rosa, Maio de 2009


Sabes leitor, que estamos na mesma página
E aproveito o facto de teres chegado agora
Para te explicar como vejo o crescer de uma magnólia.
A magnólia cresce na terra que pisas - podes pensar
Que digo alguma coisa não necessária, mas podia ter-te dito, acredita.
Que a magnólia te cresce como um livro entre as mãos. Ou melhor,
Que a magnólia - e essa é a verdade - cresce sempre
Apesar de nós.
Esta raiz para a palavra que ela lançou no poema
Pode bem significar que no ramo que ficar desse lado
A flor que se abrir é já um pouco de ti. E a flor que te estendo,
Mesmo que a recuses
Nunca a poderei conhecer, nem jamais, por muito que a ame,
A colherei.

A magnólia estende contra a minha escrita a tua sombra
E eu toco na sombra da magnólia como se pegasse na tua mão.

Daniel Faria, em Dos líquidos


* O título é um verso do poem de Daniel Faria...

09 maio, 2009

De verde eternidade e não prodígios

Desenho de Pablo Picasso, 1921

Arte Poética

Olhar o rio que é de tempo e água
E recordar que o tempo é outro rio.
Saber que nos perdemos como o rio
E que os rostos passam como a água.

Sentir que a vigília é outro sono
Que sonha não sonhar e que a morte
Que teme a nossa carne é essa morte
De cada noite, que se chama sono.

Ver no dia ou até no ano um símbolo
Quer dos dias do homem quer dos anos,
Converter a perseguição dos anos
Numa música, um rumor e um símbolo,

Ver só na morte o sono, no ocaso
Um triste ouro, assim é a poesia
Que é imortal e pobre. A poesia
Volta como a aurora e o ocaso

Às vezes certas tardes uma cara
Olha-nos do mais fundo dum espelho;

A arte deve ser como esse espelho
Que nos revela a nossa própria cara.

Contam que Ulisses, farto de prodígios
Chorou de amor ao divisar a Ítaca
De verde eternidade e não prodígios.

Também é como o rio interminável
Que passa e fica e é cristal dum mesmo
Heraclito inconstante, que é o mesmo
E é outro, como o rio interminável.

Jorge Luís Borges, Arte Poética pp. 63 e 65,
em Poemas escolhidos selecção feita pelo autor Ruy Belo, Dom Quixote, 2003
.



* o Título é um verso do poema de JLB.

07 maio, 2009

de ternura moldei o meu cansaço


Fotografia de Gisela Rosa, Maio de 2009


De coragem vesti a solidão,
de ternura moldei o meu cansaço
e fui mulher-canção, mulher-abraço
de quem me viu morrer por cada sonho,
de quem me viu nascer em cada esperança.
Na lembrança guardei toda a beleza
e a tristeza cobri de fantasia.
Enfeitei-me de poesia como quem reza
e fui vadia, no gosto aventureiro de quem vive.
E sou mulher-certeza, mulher-livre,
mulher do dia-a-dia a tempo inteiro.

Graça Pires, 1985

(Obrigada Graça, por este tão belo poema)

05 maio, 2009

deixo que a lua se instale em minha pele,


Desenho de António Ramos Rosa, em Cartolina A3, 2005.


Surpreendida por um caminho sem tempo,
deixo que a lua se instale em minha pele,
lasciva e húmida. Habito uma ilha suspeita
de servir de abrigo a veleiros perdidos.
E digo: há um mar horizontal na solidão
de uma mulher, com as mãos cansadas
de sulcar distâncias em caminhos de espuma.

Graça Pires, Uma Certa Forma de Errância, p. 13



* O título é um verso do poema de Graça Pires

02 maio, 2009

põe nos meus dedos os teus dedos


Ria de Heij, Holanda, wm Onexposure - 1x.com



Imagino que sobre nós virá um céu
de espuma e que, de sol em sol,
uma nova língua nos fará dizer
o que a poeira da nossa boca adiada
soterrou já para lá da mão possível
onde cinzentos abandonamos a flor.

dizes: põe nos meus dedos os teus dedos
e passemos os séculos sem rosto,
apaguemos de nossas casas o barulho
do tempo que ardeu sem luz.
sim, cria comigo esse silêncio
que nos faz nus e em nós acende
o lume das árvores de fruto.

diz-me que há ainda versos por escrever,
que sobra no mundo um dizer ainda puro.

Vasco Gato, Um mover de mão, Assírio & Alvim, Lisboa, 2000



* o título deste post é um verso do poema de Vasco Gato.