26 junho, 2009

Enquanto o Sol


Tela, Gisela Rosa - 2008



Poderia inventar uma forma para te dar
mas encontraria sempre novas formas Abertas
por onde se evadiria o ponto fixo que idealizei
no início

poderia espalhar uma cor dentro da tela
para encontrar a linha que nos une
em cada traço em cada passo
num caminho

Poderia dar-te uma flor com a dimensão
de um encontro

agora
dou-te um abraço com a extensão
destes braços e as cores de um sentimento
que repousa numa tela sempre em movimento


Gisela Rosa, 2006

23 junho, 2009

"Passo a vida fabricando o real"

Desenho de António Ramos Rosa, Junho de 2009



*O título deste post é da autoria de Agostinho da Silva


21 junho, 2009

do que é inteiro e sereno

Anda o podador no jardim
por entre as mulheres,
elas têm nos vestidos
lírios, malmequeres,
ramos entrelaçados
rosas acesas;

os lábios são tocados
pela seiva doce
do ramo da roseira,
pelo gosto do jasmim
do batom sobrepassado.
a toque de brincadeiras;

as mãos têm riscos
transparentes na flor
dos braços, sem dor
de sangue, ainda quentes.
Laboram entre a folhagem
ao sol a poente.

Só o podador de galho na mão
impõe um gesto vermelho,
como uma lanterna, o podão.
num jardim de rosas arqueado,
quase rente ao alcatrão.

E as mulheres de riso aberto
lembram-se do seu país deserto,
as férias um dia
a chegada, a ida então;
os risos abertos de comoção
seriam plenos
como cá se diz do Verão.

As mulheres levantadas
transparecem na luz do sol
com as mãos fincadas nas cinturas.
são um farol do podão, um tremor;
o podador de guia em guia
labora, distende, cerceia, estria
puxa a si, ergue o galho
desconta a raiz

as mulheres riem no trabalho,
mas também cobram dores,
põem nas bagatelas reunidas
o falar desentendido
muito estranho ao podador;
debruçadas caem as pétalas de seus lenços
no chão,
colhem elas dos plásticos pretos
o estrume pousado perto, no alcatrão.

São mulheres simples como é comum dizer-se
do que luz,
do que é inteiro e sereno,
do que é intenso e seduz.

O riso une-as,
o podador impõe o podão
e a puxão arranca cerce as raízes,
tudo queda perfeito
no rumor dos dias quase felizes.

Estas mulheres têm casos simples com as rosas,
dedilham o chão das miudezas,
cuidadosas com o labor
daquelas simples certezas
que florescem além do chão,
mesmo antes do podador
admoestar no alcatrão.

Às vezes só uma se levanta,
faz juízo a uma nuvem
que nada traz ao Verão
é motivo de conversa,
todas se erguem para o longe
até o podador, se esquece do podão.

Lembram-se das terras de areias
tudo deixado, tudo ermo,
tudo desabitado nos olhos.
na terra muito longe,
sem uma gota para a sede
levantada agora pela nuvem
na memória dos dias,
no sufoco das estações.

José Ribeiro Marto, Andavam as mulheres no jardim, em Pastoreio pp. 27-30, 2009

* o título é um verso deste poema.


© Ferran Jorda

16 junho, 2009

hei-de dizer o nome


Vento, Desenho/poema de António Ramos Rosa, 2005


Com as árvores e com as águas
partilho os meus pensamentos.
Manuseio estas palavras
como se fossem minhas
para as usar como protesto,
como absolvição: boca
devorando a própria fome.
Aguardo um sinal que decifre
o nomadismo da memória
e rompa a cumplicidade do tempo.

Graça Pires, Uma extensa mancha de sonhos, p. 45 - 2008


* O título deste post é um verso de Graça Pires, p. 12 do mesmo livro

11 junho, 2009

as palavras desenham-se na parede



Desenho de António Ramos Rosa, caneta tombo em folha de papel, 2008


É um jogo? Ainda não...
Serei eu? Em que objecto?
Aqui na mão, o movimento
ou corda de água ou sol por dentro.
Ainda não, e já poema?
Desejo só a lentidão
que abre o espaço para a mão.

...Que se desata no silêncio
e que ao silêncio dá a forma
do espaço vivo entre objectos.
Forma do gosto, da língua e pulso,
uma carícia de atenção.


António Ramos Rosa, em O Chão do Sopro, Respirar a Sombra Viva, p. 23, 1975



*o título deste post é um verso do poema com o mesmo título de ARR, p. 49 do mesmo livro.

10 junho, 2009

Caminhos brancos de silêncio


Jean Cocteau Astrologie, 1958


Fomos visitar uns monges chineses, talvez taoístas.
António deitou-se, perante eles, em posição quase fetal - o que, noutra pessoa, teria sido considerado irreverência. Neste caso particular havia como um acordo tácito. (A posição correcta - que aqui não faz sentido seria de joelhos).
Ele não fez perguntas. Foi-lhe dito que tinha atingido o Absoluto.

Perguntei se eu alguma vez atingiria a serenidade. Foi-me respondido que só muito próximo do fim da vida.
Mas saí numa espécie de estado-de-graça, como se tivesse iniciado o caminho da perfeição.


Sonho de 8/10/88
Agripina Costa Marques, Sonhos, p.33, 1990


*A autora é companheira de António Ramos Rosa
** O título deste post é um verso de ACM.

08 junho, 2009

lembrando que existe um rio



Fisherman © Rudi Kokic

Om é o arco, a seta é a alma
Brame é o alvo da seta
Ao qual se aponta firmemente

Hermann Hesse, Siddhartha, p.14 - 1974


* O título deste post é um verso do poema "Lisboa, Cerca Moura" de Pedro Mexia..

07 junho, 2009

Om é o arco, a seta é a alma



Fishing © Rudi Kokic

"(...) Siddhartha raramente conseguia levá-lo a falar.
Uma vez perguntou-lhe:

- Também aprendeste esse segredo do rio, quero dizer, que o tempo é coisa que não existe?
Um sorriso luminoso alastrou pelo rosto de Vasudeva.
- Sim, Siddharta - respondeu. - Queres dizer que o rio está em toda a parte ao mesmo tempo, na nascente, na foz, na catarata, no molhe, na corrente, no oceano e nas montanhas, em toda a parte, e que para ele existe apenas o presente e não a sombra do passado nem a sombra do futuro?
- Exactamente. E quando aprendi isto passei em revista a minha vida e ela também era um rio, e Siddhartha moço, Siddhartha homem maduro e Siddhartha velho encontravam-se separados apenas por sombras e não pela realidade. As anteriores vidas de Siddhartha também não pertenciam ao passado e a sua morte e o seu regresso a Brame não pertencem ao futuro. Nada foi, nada será, tudo tem realidade e presença....

Não é verdade, meu amigo, que o rio tem muitas vozes? ....
Assim é - concordou Vasudeva. - As vozes de todas as criaturas vivas estão na sua Voz. (...)"

Hermann Hesse, Siddhartha, pp. 113-114 - 1974


* o título deste post foi extraído do livro acima referido, p. 14.



05 junho, 2009

como o voo livre das andorinhas



António Ramos Rosa, vídeo de Gisela Rosa - Abril de 2009

04 junho, 2009

olhar faz amadurecer.

cores

02 junho, 2009

aqui respiro




Pela Janela de Gisela

Contigo a meu lado eu estou contigo
tu és uma fonte de cintilante frescura

A tua amizade é uma estrela subtil
a tua atenção é a lâmpada de uma flecha
estridente o teu sorriso estala
como uma estilha colorida
que reacende a minha inocência adolescente

Contigo a meu lado o tempo tem outro espaço
e o aroma de uma fábula de outra vida
de uma cor leve de laranja

António Ramos Rosa, Vasos Comunicantes, diálogo poético com Gisela Rosa, p. 112, 2006...