01 fevereiro, 2009

Um arco de pedra

Mãos sem infância, Fotografia de Rui Manuel Machado Rodrigues,
em http://olhares.aeiou.pt/maossem_infancia_rui_manuel_machado_rodrigues_foto2511634.html
Répública Democrática do Congo. Zona de Inongo 08
* Agradeço ao fotógrafo Rui M.M..Rodrigues a cedência destad imagens da série de crianças do Congo.



Se houvesse uma pedra
a que eu pudesse chamar pedra
...

Se tivesse ao menos uma pedra
que faria da pedra?

Que farei desta mão
definitivamente sem a pedra?

Farei o que puder
com a palavra pedra
quer tenha a pedra ou não


E se eu tivesse a pedra
sem o saber
se a pedra pedra ou não
de qualquer modo fosse essa pedra já
que há tanto tempo habita
a pedra que é desejo
da transparência viva?

A pedra que eu habito
é um arco
um arco de pedra

Podes chamar-lhe buraco

No buraco
está o arco
do buraco

Queria mais que uma pedra
queria outra pedra

Invento uma pedra
para esta pedra

Invento outro arco
e outro
e outro ainda

Atiro uma pedra
para ser flecha
Mas será flecha?
E será de fogo?

Saio do buraco
vou ao teu encontro
com a minha pedra
...

e por isso dou-ta
com o calor da mão
...

Se te dou a pedra
logo a pedra existe

Logo a pedra é pedra
...

Se a pedra é pedra
logo tu existes

Todo o mundo habita
no gesto da mão
que te dá a pedra

Toma então a pedra
meu irmão

António Ramos Rosa,


A minha pedra para José Gomes Ferreira,
em O Centro na Distância, pp. 47-50


9 comentários:

José Manuel Vilhena disse...

A foto fala por si, o que é bom sinal numa imagem.
Devíamos trazer sempre pedras limpas nos bolsos.Seixos,para ser mais preciso.

Gisela Rosa disse...

José Manuel Vilhena concordo consigo. A imagem diz tudo. Acrescento, porém, as palavras do poeta que contêm o valor universal da "Pedra" e do arco possível se formos atirando "pequenos seixos brancos. Só por isso." (JMV)

Obrigada pelo seu comentário, um abraço

Graça Pires disse...

Ramos Rosa: sempre a fazer-nos pensar.
Hoje sabemos que as pedras têm alma pela candência ansiosa de nossos passos...
A fotografia é fortíssima.
Um beijo Gisela.

mariab disse...

Extraordinária imagem. E as palavras de Ramos Rosa... perenes. Como as pedras que se dão, nas mãos que se estendem.
Beijos

O Profeta disse...

A terra adormece no nevoeiro
Tenho a pressa do vento
Um coração errante procura
A doçura de terno momento

Frágil e palpitante luz
A beleza voa com a manhã
O mar solta na terra ternos murmúrios
Perde-se na espuma toda a palavra vã


Dança comigo ao som da Lira


Boa semana


Mágico beijo

Gisela Rosa disse...

Graça, a poesia do meu tio é um mundo, está lá tudo. Ele é a percepção em estado puro...adoro as pedras, pela sua forma nunca igual, e porque me ensinam a caminhar...obrigada pelas palavras!


mariab sim é isso as pedras podem, ainda, ser dadas com as mãos.


profeta, gostei muito do seu poema obrigada


Um forte abraço a todos

Victor Oliveira Mateus disse...

Eu, se tivesse uma pedra que fosse
pedra atirá-la-ia de tal modo que
haveria de destruir todas as pedras
que esperam a sua vez para serem atiradas, deixaria só as outras, as
pedras-que-não-são-bem-pedras e com as
quais nos tentamos elevar nesta vida que, não sendo de pedras, às
vezes até parece.
Gisela, um grande abraço.

Gisela Rosa disse...

Victor obrigada pelo teu testemunho, neste arvo de pedra. Um grande abraço e espero que não te percas nas minhas ondas do mar. Um abraço

myra disse...

foto muito boa, boa, boa, e o poema de teu tio é fortissimo!
beijos,