20 março, 2011

o espaço da romã

Fotografia de Alice Valente Alves


é possível que as planícies demorem

quando o chão é um fruto redondo


não sei se tenho nos olhos

o perfume vermelho do fruto ou do fogo

quando a palavra é cratera e irrompe


deusa é a forma que une os bagos da romã

com a essência da lava e do sangue


é possível que o chão seja um fruto

que amanhece como os dias dentro de nós

e as mãos sejam tronco ou caule de infância


rendo-me à seiva do fruto na planície do poema

chão onde o vinho é mel corpo e romã


Gisela Ramos Rosa 20-03-2011



* Agradeço a Alice Valente Alves a cedência desta imagem à Matriz dos Sonhos.
Quando a autora a editou no seu blogue ALI_SE, em Dezembro de 2010, nasceu em mim
a vontade de escrever com ela e de a trazer para aqui.

06 março, 2011

....a linha alta dos sonhos

Tecto de uma das salas do museu da catedral (Sé) de Faro.




há uma estrela entre mim e o mundo
quando sonho

avisto homens que falam em redor dos meus olhos
trazendo outras páginas do Livro, não sei se nos aproximamos
no sonho

há sons, muitos sons que se cruzam num território de palavras
e pensamentos escritos em superfícies líquidas
como conchas húmidas cheias de areia da ria

há uma luz caligrafada nos muros
sempre que o silêncio é a boca, há uma outra voz
ou estrela no tecto que fala do pensamento

há homens que escavam a linha alta dos sonhos


Gisela Ramos Rosa 6-03-2011