19 julho, 2009

a voz do meu corpo e do teu












A VOZ ANÓNIMA

A voz de uma só árvore desconhecida
de um só murmúrio no livro de todos os livros de ninguém
a voz extrema do princípio inacabado
a voz do acaso revelador e do desejo errante e sepultado
a voz que quer fugir de si e da pele viva do mundo
e da noite e da morte e do naufrágio da terra e da obstinação do mar
e de todos os homens num só homem solitário
a voz anónima de sempre e de nunca num só ponto
num grito inaudível num grito puro
com todo o sentido do silêncio e não sentido
a voz da cinza permanente a voz viva do fogo
a voz que quer fugir de todas as definições e conclusões
de todas as máscaras de todas as carapaças e pedregulhos
de todos os nomes
do meu e do teu
a voz nua sem corpo na voz nua do corpo
a voz submersa traída assassinada em todas as referências
a voz da apropriação e da propriedade de todas as coisas
a voz do silêncio e da cinza de todas as pretensões
a voz estranha e obstinante
a voz do género e do único adicionado
a voz inexprimível a voz do deserto
a voz da figura construída e desconstruída
a voz do meu corpo e do teu
a voz que quer viver
a voz impaciente que quer esquecer-se de que espera
e de que não pode esperar
a voz da criança que ascende para o sol num arco
a voz do fogo que quer perder-se no sono de uma chama
fugir sempre fugir partir sempre partir
extrair-me de ser e de querer ser
não ser ninguém nem de ninguém
lá onde me perco e me encontro entre o sol e o mar
lá no centro perdido lá na respiração da água do ar
na surpresa de ser nascente do poema
no encanto do encontro
lá num só ponto num só espaço lá...

António Ramos Rosa, Novembro de 2003

* Poema passado por mim, já publicado neste blog em manuscrito, quando um dia fui visitar o meu tio que estava movido pela força genial deste poema. Pediu-me para que o difundisse por todos os amigos. Assim o fiz. Este poema foi depois publicado na Revista Babilónia da Universidade Lusófona.


O desenho é de Fevereiro de 2009

8 comentários:

El Viejo @gustín disse...

Hermoso, me llena de fortaleza y valor.
Gi. me envias la copia escaneada del manuscrito a mi Mail.
Lo espero.

1 beso

Eddy Nelson disse...

têm uma força incrivel. aliás, essa é a voz de um dos mais iluminados-poeta-feitiçeiro desta contemporaneidade azul.

Rosa Cáceres disse...

De entre todas las voces que ahí se relacionan, me parece la más hermosa la voz del silencio, porque en el silencio se hallan las respuestas que el alma necesita.

Gisela Rosa disse...

El Viejo o manuscrito está numa das primeiras mensagns deste blog. Un abrazo e gracias!

Eddy Nelson, o seu comentário é valioso! Compreendo como conhece a essência do poeta, um mago visionário do olhar e da palavra, sem qualquer dúvida! Muito obrigada! Um abraço!

Obrigada Rosa, é sempre no silêncio que encontramos a voz interior e também a voz da relação com o que nos cerca. Un abrazo

ellen disse...

Gisela,
maravilhoso poema,
tocante e arrepiante... adorei!
trasmite ao tio que ele (poema) encantou :)

Beijo grande até ti

myra disse...

esplendido!!!!como gostei!!!!
beijos aos dois,

myra disse...

ja comentei mas volto a dizer que è maravilhoso!!!!
beijos e saudades, teu espacio aqui, è uma verdadeira beleza!!!!!!!!!

Nilson Barcelli disse...

O poema é fabuloso.
Já li muita poesia do teu tio (pensei que fosse teu pai), mas este poema não conhecia.
Beijo.