28 março, 2009

Mas o mundo é ainda a substância

Pol-e Khomri, Afeganistão 1992. Fotografia de Steve McCurry

O mundo é um rumor de martelos e de gritos de criança
e é este vazio fundo de tristeza
de quem se extraviou desde a origem
Mas o mundo é ainda a substância
solar e a serenidade incandescente
de um mistério para sempre silencioso
E mais que o rumor o mundo é a distância
que através dos ruídos faz sentir a monótona
imensidade que se recolhe quanto se prolonga
E sentimos muito longe a esfera iluminada
ainda que envolvidos pela paz solar
e pelo vazio puro de uma luz inextinguível
Nada é imediato já Nenhuma urgência
Que permaneça só a solidão tão nítida
e estas ilhas brancas suavíssimas
cuja frescura se pressente entre a folhagem
E que continue o murmúrio luminoso
na sua língua de silêncio e de espaço
para que nos nimbe da sua claridade

António Ramos Rosa, O Livro da Ignorância (1988, p. 84)

6 comentários:

Te disse...

Gisela, esta fotografia e poema estão belíssimos... Steve Mccurry, é o meu fotógrafo favorito. Bfdsemana

adelaide amorim disse...

Sensibilidade à flor da pele, solidariedade para com o outro, o que "se extraviou desde a origem".
Beijo, Gisela, e um bom domingo.

Gisela Rosa disse...

Adelaide, não sei porque meu olhar, vai sempre ao encontro do "que se extraviou desde a origem". É uma espécie de comunicação interna que acontece em mim, da alma, talvez. Um beijinho

Gisela Rosa disse...

Te, as suas palavras encontram-me. Muito obrigada.

Henrique Dória disse...

è quando leio poemas como este que penso quanto devo ao teu tio.Beijos

Graça Pires disse...

O mundo é um rumor da tanta coisa que nos dói...
"Que permaneça só a solidão tão nítida e estas ilhas brancas suavíssimas cuja frescura se pressente entre a folhagem"
O Poeta com asua clara palavra...
Um beijo, Gisela