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08 dezembro, 2009

todo o ser vivo ou todo o som contém uma cifra do universo *

Rice Paddy in Myanmar
© Alessandro Della Casa

João Medina dá-nos a conhecer no Jornal de Letras o mais recente livro de George Steiner, George Steiner at the New Yorker(2009), uma colectânea de 30 anos de crónicas literárias. Encantei-me quando a dada altura Medina remete-nos para: "o longo texto crítico que Steiner dedica a Jorge Luís Borges (p.162-175), um espírito - e um caso - que não podia deixar de atrair e fascinar Steiner, até pelas suas comuns preocupações cabalistas sabe-se que o argentino teve um aprendizado de cabala, quando residia em Genebra, o que lhe permitiu imaginar aquela prodigiosa metáfora do Aleph, localizado algures, numa escadaria na Rua Garay em Buenos Aires, a partir da ideia de que todo o ser vivo ou todo o som contém uma cifra do universo como um todo (...) e cita Steiner:

"O Universo é um grande Livro, e cada fenómeno natural e mental carrega consigo significado. O mundo é um imenso alfabecto. A realidade física, os factos da história, tudo o que os homens tenham criado, são como sílabas duma mensagem constante. Estamos rodeados duma rede ilimitada de significado, cuja verdadeira fibra carrega um pulsar de ser e conduz, por fim, ao que Borges, na sua enigmática história, chama Aleph (...). É o espaço dos espaços, a esfera cabalística cujo centro está em toda a parte e a sua circunferência em parte nenhuma; é a roda da visão de Ezequiel mas também o tranquilo passarinho do misticismo sufi, no qual de alguma maneira se contêm todos os pássaros."

Refere, ainda, João Medina, "Steiner sublinha a ideia borgiana de que o universo é uma Biblioteca, que contém todos os livros e todas as línguas"...


George Steiner: um crítico prodigioso, crónica de João Medina em Jornal de Letras, 2-15 Dezembro de 2009, p. 43

*O título é da autoria de João Medina

03 outubro, 2009

a água, um possível espaço de reflexos*


Reflection
© Shazeen Samad


Nos sonhos (escreve Coleridge) as imagens figuram as impressões que pensamos que causam.


Jorge Luís Borges, in O Fazedor, Ragnarok, p. 53



* título inspirado no conto "Os Espelhos" do livro referido antes de JLB.

09 maio, 2009

De verde eternidade e não prodígios

Desenho de Pablo Picasso, 1921

Arte Poética

Olhar o rio que é de tempo e água
E recordar que o tempo é outro rio.
Saber que nos perdemos como o rio
E que os rostos passam como a água.

Sentir que a vigília é outro sono
Que sonha não sonhar e que a morte
Que teme a nossa carne é essa morte
De cada noite, que se chama sono.

Ver no dia ou até no ano um símbolo
Quer dos dias do homem quer dos anos,
Converter a perseguição dos anos
Numa música, um rumor e um símbolo,

Ver só na morte o sono, no ocaso
Um triste ouro, assim é a poesia
Que é imortal e pobre. A poesia
Volta como a aurora e o ocaso

Às vezes certas tardes uma cara
Olha-nos do mais fundo dum espelho;

A arte deve ser como esse espelho
Que nos revela a nossa própria cara.

Contam que Ulisses, farto de prodígios
Chorou de amor ao divisar a Ítaca
De verde eternidade e não prodígios.

Também é como o rio interminável
Que passa e fica e é cristal dum mesmo
Heraclito inconstante, que é o mesmo
E é outro, como o rio interminável.

Jorge Luís Borges, Arte Poética pp. 63 e 65,
em Poemas escolhidos selecção feita pelo autor Ruy Belo, Dom Quixote, 2003
.



* o Título é um verso do poema de JLB.

14 março, 2009

A rosa

Botão de rosa príncipe negro, fotografia de Gisela Rosa



A rosa,
a imarcescível rosa que não canto,
a que é peso e fragrância,
a do negro jardim na alta noite,
a de qualquer jardim e qualquer tarde,
a rosa que ressurge da ténue
cinza através da arte da alquimia,
a rosa dos persas e de Ariosto,
a que sempre está só,
a que sempre é a rosa das rosas,
a jovem flor platónica,
a ardente e cega rosa que não canto,
a rosa inalcançável.

Jorge Luís Borges, A rosa

20 fevereiro, 2009

O paciente labirinto de linhas

Fotografia de Marta Tavares


...Um homem propõe-se a tarefa de desenhar o mundo. Ao longo dos anos povoa um espaço com imagens de províncias, de reinos, de montanhas, de baías, de naves, de ilhas, de peixes, de quartos, de instrumentos, de astros, de cavalos e de pessoas. Pouco antes de morrer descobre que esse paciente labirinto de linhas traça a imagem do seu rosto.

Jorge Luís Borges, Buenos Aires, 31 de Outubro de 1960
in o Fazedor, epílogo