06 agosto, 2011














quando a sede é pergaminho
a mão avança para a água do poema
como a sombra que antecede o barro
antes da forma encontrar a pedra
secular


Gisela Ramos Rosa 06-08-2011






Fotografia de Mariis Capela

02 julho, 2011

Não sei porquê a luz*




As palavras mais vãs são aquelas que habitam o livre arbítrio dos dias,
Afasto-as do poema com a Alma

por haver um rio entre as muralhas
onde os olhos se misturam com uma pronúncia muda
invoco o oceano íntimo que trago no peito
percorrendo a lucidez das superfícies nuas
amo o princípio evidente das coisas, dos seres
uma pedra, a boca, a baga desigual
na saliva dos homens dissolvendo os dias

Vou encontrando a luz, palavra ou barca
atravessando
o dia até ao lugar do visível
por detrás dos olhos onde todas as águas se diluem

e encontram



Gisela Ramos Rosa, 2-07-2011

05 junho, 2011

todos os nomes do coração



Reclamo a nudez os pés da infância

um tempo suspenso com o odor a ervas húmidas

a terra molhada, o lugar que baloiça e alteia

chapinho nos charcos onde as rãs desafiam a água

para que os meus dedos possam caligrafar

todos os nomes do coração


Gisela Ramos Rosa, 05-06-2011





22 maio, 2011



Olho a água para reabrir a nascente com as mãos
porque há uma raiz na longínqua margem do silêncio.


Gisela Ramos Rosa
22-05-2011

08 maio, 2011

fotografia de Maria Margarida Oliveira Ramos

Os pensamentos são uma escrita silenciosa...são como ramos que se ligam por intervalos de silêncio....
Gisela Ramos Rosa, 07-05-2011

03 abril, 2011

a verdade é a minha liberdade




Às vezes entrego-me ao poema e à sua acção como se houvesse uma transição entre mim e a palavra. Como na dança dobro o fluxo das ideias para extrair o sentido do corpo e escrevo com os gestos da mediação sensorial..... inclino-me e encontro a imagem que será palavra....coreografo a página com a rede emocional e na dançarina encontro o equilíbrio “meta-estável” do corpo

gesto e palavra em movimento....


há uma força subtil no sentido deste gesto,

onde abandono surdas sinfonias

repara como é preciso Ver para dentro e para fora

para a viagem entre nós e o mundo


há uma palavra branca antes de tudo

e se alguma mão cegar a possibilidade

a outra arrebatará com o pulso do Verbo,


escrevo para celebrar a voz que se funde

no corpo da criança que não derruba nem fere

e com a “água do poema” atravesso a frase que

me pensa por dentro como uma dança

no devir do gesto, a verdade é a minha liberdade


Gisela Ramos |Rosa, 3-04-2011

20 março, 2011

o espaço da romã

Fotografia de Alice Valente Alves


é possível que as planícies demorem

quando o chão é um fruto redondo


não sei se tenho nos olhos

o perfume vermelho do fruto ou do fogo

quando a palavra é cratera e irrompe


deusa é a forma que une os bagos da romã

com a essência da lava e do sangue


é possível que o chão seja um fruto

que amanhece como os dias dentro de nós

e as mãos sejam tronco ou caule de infância


rendo-me à seiva do fruto na planície do poema

chão onde o vinho é mel corpo e romã


Gisela Ramos Rosa 20-03-2011



* Agradeço a Alice Valente Alves a cedência desta imagem à Matriz dos Sonhos.
Quando a autora a editou no seu blogue ALI_SE, em Dezembro de 2010, nasceu em mim
a vontade de escrever com ela e de a trazer para aqui.