
Afasto-as do poema com a Alma
por haver um rio entre as muralhas
uma pedra, a boca, a baga desigual
na saliva dos homens dissolvendo os dias
atravessando o dia até ao lugar do visível
e encontram
Gisela Ramos Rosa, 2-07-2011

Reclamo a nudez os pés da infância
um tempo suspenso com o odor a ervas húmidas
a terra molhada, o lugar que baloiça e alteia
chapinho nos charcos onde as rãs desafiam a água
para que os meus dedos possam caligrafar
todos os nomes do coração
Gisela Ramos Rosa, 05-06-2011

fotografia de Maria Margarida Oliveira Ramos
gesto e palavra em movimento....
há uma força subtil no sentido deste gesto,
onde abandono surdas sinfonias
repara como é preciso Ver para dentro e para fora
para a viagem entre nós e o mundo
há uma palavra branca antes de tudo
e se alguma mão cegar a possibilidade
a outra arrebatará com o pulso do Verbo,
escrevo para celebrar a voz que se funde
no corpo da criança que não derruba nem fere
e com a “água do poema” atravesso a frase que
me pensa por dentro como uma dança
no devir do gesto, a verdade é a minha liberdade
Gisela Ramos |Rosa, 3-04-2011
Fotografia de Alice Valente Alves
é possível que as planícies demorem
quando o chão é um fruto redondo
não sei se tenho nos olhos
o perfume vermelho do fruto ou do fogo
quando a palavra é cratera e irrompe
deusa é a forma que une os bagos da romã
com a essência da lava e do sangue
é possível que o chão seja um fruto
que amanhece como os dias dentro de nós
e as mãos sejam tronco ou caule de infância
rendo-me à seiva do fruto na planície do poema
chão onde o vinho é mel corpo e romã
Gisela Ramos Rosa 20-03-2011