05 junho, 2011

todos os nomes do coração



Reclamo a nudez os pés da infância

um tempo suspenso com o odor a ervas húmidas

a terra molhada, o lugar que baloiça e alteia

chapinho nos charcos onde as rãs desafiam a água

para que os meus dedos possam caligrafar

todos os nomes do coração


Gisela Ramos Rosa, 05-06-2011





22 maio, 2011



Olho a água para reabrir a nascente com as mãos
porque há uma raiz na longínqua margem do silêncio.


Gisela Ramos Rosa
22-05-2011

08 maio, 2011

fotografia de Maria Margarida Oliveira Ramos

Os pensamentos são uma escrita silenciosa...são como ramos que se ligam por intervalos de silêncio....
Gisela Ramos Rosa, 07-05-2011

03 abril, 2011

a verdade é a minha liberdade




Às vezes entrego-me ao poema e à sua acção como se houvesse uma transição entre mim e a palavra. Como na dança dobro o fluxo das ideias para extrair o sentido do corpo e escrevo com os gestos da mediação sensorial..... inclino-me e encontro a imagem que será palavra....coreografo a página com a rede emocional e na dançarina encontro o equilíbrio “meta-estável” do corpo

gesto e palavra em movimento....


há uma força subtil no sentido deste gesto,

onde abandono surdas sinfonias

repara como é preciso Ver para dentro e para fora

para a viagem entre nós e o mundo


há uma palavra branca antes de tudo

e se alguma mão cegar a possibilidade

a outra arrebatará com o pulso do Verbo,


escrevo para celebrar a voz que se funde

no corpo da criança que não derruba nem fere

e com a “água do poema” atravesso a frase que

me pensa por dentro como uma dança

no devir do gesto, a verdade é a minha liberdade


Gisela Ramos |Rosa, 3-04-2011

20 março, 2011

o espaço da romã

Fotografia de Alice Valente Alves


é possível que as planícies demorem

quando o chão é um fruto redondo


não sei se tenho nos olhos

o perfume vermelho do fruto ou do fogo

quando a palavra é cratera e irrompe


deusa é a forma que une os bagos da romã

com a essência da lava e do sangue


é possível que o chão seja um fruto

que amanhece como os dias dentro de nós

e as mãos sejam tronco ou caule de infância


rendo-me à seiva do fruto na planície do poema

chão onde o vinho é mel corpo e romã


Gisela Ramos Rosa 20-03-2011



* Agradeço a Alice Valente Alves a cedência desta imagem à Matriz dos Sonhos.
Quando a autora a editou no seu blogue ALI_SE, em Dezembro de 2010, nasceu em mim
a vontade de escrever com ela e de a trazer para aqui.

06 março, 2011

....a linha alta dos sonhos

Tecto de uma das salas do museu da catedral (Sé) de Faro.




há uma estrela entre mim e o mundo
quando sonho

avisto homens que falam em redor dos meus olhos
trazendo outras páginas do Livro, não sei se nos aproximamos
no sonho

há sons, muitos sons que se cruzam num território de palavras
e pensamentos escritos em superfícies líquidas
como conchas húmidas cheias de areia da ria

há uma luz caligrafada nos muros
sempre que o silêncio é a boca, há uma outra voz
ou estrela no tecto que fala do pensamento

há homens que escavam a linha alta dos sonhos


Gisela Ramos Rosa 6-03-2011




27 fevereiro, 2011

pousei a maçã devagar sobre as mãos...

Peter Mitchev


pousei os lábios na maçã que me ofereceste para sentir o suco intenso do mundo, depois inclinei a cabeça e a vida para poder imaginar o fruto despido,

espero que tenhas percebido o movimento do meu corpo amanhecendo o coração nos teus olhos
quando pousei a maçã devagar sobre as mãos.... e colori a boca e os dedos com a cor intensa do mesmo fruto.

caligrafei uma palavra acesa em todo o movimento... e descobri o silêncio azul de uma chama na vénia onde permanece a leveza do nome desse fruto...

Espero


Gisela Ramos Rosa, 27-02-2011