27 fevereiro, 2011

pousei a maçã devagar sobre as mãos...

Peter Mitchev


pousei os lábios na maçã que me ofereceste para sentir o suco intenso do mundo, depois inclinei a cabeça e a vida para poder imaginar o fruto despido,

espero que tenhas percebido o movimento do meu corpo amanhecendo o coração nos teus olhos
quando pousei a maçã devagar sobre as mãos.... e colori a boca e os dedos com a cor intensa do mesmo fruto.

caligrafei uma palavra acesa em todo o movimento... e descobri o silêncio azul de uma chama na vénia onde permanece a leveza do nome desse fruto...

Espero


Gisela Ramos Rosa, 27-02-2011

24 fevereiro, 2011





A fotografia é de João Menéres, a ilustração é de Tonho Oliveira e o título de Gisela Rosa. Vejam o desafio do qual resultou este voo de pássaros
aqui no blogue de João Menéres

13 fevereiro, 2011

Espera um momento antes de deixares esta página,

DELENE MEIRING (in Jorgina Puga - Facebook)

“O que ama gera-se a si mesmo em cada instante”

Maria zambrano


Espera um momento antes de deixares esta página, quero dizer-te como as imagens que pensamos ver são muitas vezes sombras da unidade que nos falta...há mesmo quem subsista através do mimetismo voraz do outro sem se esforçar por querer ser.......bem sei que estás pensando na razão desta entrada mas se suspenderes a interrogação verás como a retina é apenas uma objectiva que te dá uma imagem transformada por tudo o que trazes dentro de ti. Os olhos são entradas de uma visão interior e anterior, um processo de apreensão do mundo que é reflexo dialéctico entre ti e o mundo.... além disso,

há ainda palavras na página que levantam voo querendo alcançar a forma, digo-lhes: desculpem mas já não estamos na hora de poderem nascer....

mas elas sabem que preciso do corpo imaginado e então colocam-me nesta jangada entre a corrente da imagem e do afecto para com a língua me estender por inteiro no branco da página...e escrevo até fundir o coração e o peito para então fechar os olhos lembrando a herança dos pássaros que levantam voo por dentro....

Gisela Ramos Rosa, 13-02-2011

06 fevereiro, 2011

Há rumores de tinta neste rosto

la vie a choisi
By: Lisa G.


Há rumores de tinta neste rosto...





23 janeiro, 2011

como desenhar um rio inscrito na pele?

Jennifer Alder


escrever sobre um rosto é traçar numa tela a matéria do silêncio
como desenhar um rio inscrito na pele?
há palavras na boca que dizem a palavra, o início, há palavras que dizem pão,
há palavras no rosto há palavras há rosto há um rosto de palavras
na minha mão,

há uma fricção entre o rosto do mundo e o mundo do rosto
há a Voz de um rosto que resiste e revela por entre as mãos

há num rosto um olhar e um espelho,
um animal insubmisso, há uma substância mental
num rosto encontro um mapa de alianças, um fluxo de água
num rosto confluem poema e tempo
uma melodia de palavras em gestação

Gisela Ramos Rosa 23-01-2011


13 janeiro, 2011

quem seria Gisela antes de ser Gisela?



A partir de uma palavra perdida


Antes de ti poderia eu lembrar-me de ti?

O que serias tu antes de ti?
Poderia eu ter-te criado
Se não te tivesse encontrado?
de onde partiria o meu canto
se não fosse do teu nome
que é uma estrela e não um emblema
nem uma bandeira
Poderia eu criar-te no meu arco vazio?
Sem a respiração do teu rosto?
Envolvido numa cabeleira intuitiva
Quem seria Gisela antes de ser Gisela?

António Ramos Rosa, 20-08-05 (inédito)

08 janeiro, 2011

ancorados no espaço a um ponto de luz,

© Jorris Martinez

tentei explicar-te como os mundos se cruzam, durante a travessia, enquanto resumíamos a dor naquele despertar de espelhos.......lembras-te como os nossos dedos deslizavam suavemente na superfície da pedra negra que apanhei à junto ao mar? e tu repetias-me incessantemente “é no mar das descobertas que tenho o meu olhar”....acordo muitas vezes na planície desse pensamento, como se estivesse dentro de ti....ou tu dentro de mim....ancorados no espaço a um ponto de luz, sem vazio nem perda,......e dizias-me “tenho o mar no meu olhar”.....tentei explicar-te, de novo, que atravessávamos o núcleo de um sonho de semelhanças onde a paisagem do caminho tinha as mãos juntas...e tu repetias “é no mar que saro as minhas feridas”...

Com a memória do espaço que separa as mãos fecho-as para nelas fecundar um olhar ou um silêncio com o espanto da criança que segura um pássaro olhando a janela com os reflexos do Mar...

Gisela Ramos Rosa, 08-01-2011