
A fotografia é de João Menéres, a ilustração é de Tonho Oliveira e o título de Gisela Rosa. Vejam o desafio do qual resultou este voo de pássaros
aqui no blogue de João Menéres


“O que ama gera-se a si mesmo em cada instante”
Maria zambrano
Espera um momento antes de deixares esta página, quero dizer-te como as imagens que pensamos ver são muitas vezes sombras da unidade que nos falta...há mesmo quem subsista através do mimetismo voraz do outro sem se esforçar por querer ser.......bem sei que estás pensando na razão desta entrada mas se suspenderes a interrogação verás como a retina é apenas uma objectiva que te dá uma imagem transformada por tudo o que trazes dentro de ti. Os olhos são entradas de uma visão interior e anterior, um processo de apreensão do mundo que é reflexo dialéctico entre ti e o mundo.... além disso,
há ainda palavras na página que levantam voo querendo alcançar a forma, digo-lhes: desculpem mas já não estamos na hora de poderem nascer....
mas elas sabem que preciso do corpo imaginado e então colocam-me nesta jangada entre a corrente da imagem e do afecto para com a língua me estender por inteiro no branco da página...e escrevo até fundir o coração e o peito para então fechar os olhos lembrando a herança dos pássaros que levantam voo por dentro....
Gisela Ramos Rosa, 13-02-2011
la vie a choisi
Jennifer Alder
© Jorris Martineztentei explicar-te como os mundos se cruzam, durante a travessia, enquanto resumíamos a dor naquele despertar de espelhos.......lembras-te como os nossos dedos deslizavam suavemente na superfície da pedra negra que apanhei à junto ao mar? e tu repetias-me incessantemente “é no mar das descobertas que tenho o meu olhar”....acordo muitas vezes na planície desse pensamento, como se estivesse dentro de ti....ou tu dentro de mim....ancorados no espaço a um ponto de luz, sem vazio nem perda,......e dizias-me “tenho o mar no meu olhar”.....tentei explicar-te, de novo, que atravessávamos o núcleo de um sonho de semelhanças onde a paisagem do caminho tinha as mãos juntas...e tu repetias “é no mar que saro as minhas feridas”...
Com a memória do espaço que separa as mãos fecho-as para nelas fecundar um olhar ou um silêncio com o espanto da criança que segura um pássaro olhando a janela com os reflexos do Mar...
Gisela Ramos Rosa, 08-01-2011
... symbiosis ...
© Marian Garai
“Parece-me ter-te conhecido antes de me conhecer” (Melandro, em Maeterlinck)
...quando abri a janela o mundo era o mar que nos olhos habita, pousei as mãos devagar sobre o umbral e avistei o tempo a desaguar na foz do rio.... disseste-me que a cor das águas mudava porque o corpo da montanha se misturava com o sal do mar onde os cardumes vagam....era um tempo branco com o traçado secreto dos animais que voam....era o meu rosto dividido no meio das águas... mulher e ventre ave e infinito...era em mim a outra face, o suor do condor elevando-me num arroubo místico....eu, tu mulher e pássaro rasando as águas e os muros... puros, impuros, das visões trazidas pelo corpo e pela alma através dos silêncios e dos líquenes como pupilas olhando a saliva, os dedos e a pele....
...agora sei que há no mar o olhar de um animal veloz que percorre o sonho dos pássaros que respiram no interior das águas... incapaz de me distinguir de ti, anjo , terra, mulher ou pássaro, ventre ou asa....no seio do vale percorrendo a foz como uma barca, traçando o voo peregrino do condor ...
Gisela Ramos Rosa, 12-12-2010