06 fevereiro, 2011

Há rumores de tinta neste rosto

la vie a choisi
By: Lisa G.


Há rumores de tinta neste rosto...





23 janeiro, 2011

como desenhar um rio inscrito na pele?

Jennifer Alder


escrever sobre um rosto é traçar numa tela a matéria do silêncio
como desenhar um rio inscrito na pele?
há palavras na boca que dizem a palavra, o início, há palavras que dizem pão,
há palavras no rosto há palavras há rosto há um rosto de palavras
na minha mão,

há uma fricção entre o rosto do mundo e o mundo do rosto
há a Voz de um rosto que resiste e revela por entre as mãos

há num rosto um olhar e um espelho,
um animal insubmisso, há uma substância mental
num rosto encontro um mapa de alianças, um fluxo de água
num rosto confluem poema e tempo
uma melodia de palavras em gestação

Gisela Ramos Rosa 23-01-2011


13 janeiro, 2011

quem seria Gisela antes de ser Gisela?



A partir de uma palavra perdida


Antes de ti poderia eu lembrar-me de ti?

O que serias tu antes de ti?
Poderia eu ter-te criado
Se não te tivesse encontrado?
de onde partiria o meu canto
se não fosse do teu nome
que é uma estrela e não um emblema
nem uma bandeira
Poderia eu criar-te no meu arco vazio?
Sem a respiração do teu rosto?
Envolvido numa cabeleira intuitiva
Quem seria Gisela antes de ser Gisela?

António Ramos Rosa, 20-08-05 (inédito)

08 janeiro, 2011

ancorados no espaço a um ponto de luz,

© Jorris Martinez

tentei explicar-te como os mundos se cruzam, durante a travessia, enquanto resumíamos a dor naquele despertar de espelhos.......lembras-te como os nossos dedos deslizavam suavemente na superfície da pedra negra que apanhei à junto ao mar? e tu repetias-me incessantemente “é no mar das descobertas que tenho o meu olhar”....acordo muitas vezes na planície desse pensamento, como se estivesse dentro de ti....ou tu dentro de mim....ancorados no espaço a um ponto de luz, sem vazio nem perda,......e dizias-me “tenho o mar no meu olhar”.....tentei explicar-te, de novo, que atravessávamos o núcleo de um sonho de semelhanças onde a paisagem do caminho tinha as mãos juntas...e tu repetias “é no mar que saro as minhas feridas”...

Com a memória do espaço que separa as mãos fecho-as para nelas fecundar um olhar ou um silêncio com o espanto da criança que segura um pássaro olhando a janela com os reflexos do Mar...

Gisela Ramos Rosa, 08-01-2011


12 dezembro, 2010

e tu eras em mim a outra face

... symbiosis ...
© Marian Garai

“Parece-me ter-te conhecido antes de me conhecer” (Melandro, em Maeterlinck)

...quando abri a janela o mundo era o mar que nos olhos habita, pousei as mãos devagar sobre o umbral e avistei o tempo a desaguar na foz do rio.... disseste-me que a cor das águas mudava porque o corpo da montanha se misturava com o sal do mar onde os cardumes vagam....era um tempo branco com o traçado secreto dos animais que voam....era o meu rosto dividido no meio das águas... mulher e ventre ave e infinito...era em mim a outra face, o suor do condor elevando-me num arroubo místico....eu, tu mulher e pássaro rasando as águas e os muros... puros, impuros, das visões trazidas pelo corpo e pela alma através dos silêncios e dos líquenes como pupilas olhando a saliva, os dedos e a pele....

...agora sei que há no mar o olhar de um animal veloz que percorre o sonho dos pássaros que respiram no interior das águas... incapaz de me distinguir de ti, anjo , terra, mulher ou pássaro, ventre ou asa....no seio do vale percorrendo a foz como uma barca, traçando o voo peregrino do condor ...


Gisela Ramos Rosa, 12-12-2010



24 outubro, 2010

com a intensidade das mãos sobre as mãos

Waiting at the window
© Jennifer Alder


É desta janela que olho para ti com a intensidade dos dedos, dos olhos, da face, das mãos sobre as mãos.........numa espécie de plano sem linha há palavras que nascem como um caminho... palavras encostadas à concha do tempo , vejo-as multiplicarem-se no texto unindo a planície e o silêncio a um nome...no texto transformo o coração....

quando os raios visuais se desviam por neles não caber a minha intensidade, é nas palavras que a minha voz se funde com o fogo imaginando o húmus das casas por debaixo do colmo e dos muros, o outro lado da terra e das veias, do corpo anónimo que transita como se fosse um único lugar....aqui transformo o coração....

Desta janela lembro o sol que me espreita através do teu rosto, acrescento-me ao teu texto, um outro tacto onde colho uma rosa e o vento....até que os dedos me devolvem a superfície da folha e do poema que se abriu com o calor das nossas mãos.... é nesta página que encontro a bússola repentina que me oleia o coração...


Gisela Ramos Rosa, 24-10-2010

10 outubro, 2010

porque as acções tal como a água se repetem

Pools
© Daniel Bernal

a água que estas mãos seguram revela como impossível é reter a fluidez....observa os círculos concêntricos, eles propagam-se em leves ondas quando a água cai sobre a outra água....ainda que não consigas ver, o mesmo acontece nas mãos sujeitas ao peso da água.... por mais leve que seja uma substância, uma acção, um som, uma palavra, há um efeito que se produz num outro corpo ou objecto que tocamos ou a que nos dirigimos, uma ressonância que multiplica a água e o movimento, harmonizando ou distorcendo....

por exemplo....se mergulhássemos todas as palavras perversas, todas as acções perversas, na harmonia destas mãos, a sombra traiçoeira daria lugar à transparência......escrever é pedir às mãos que inundem e derramem as ideias mais altas sobre a página, lugar concêntrico onde a conversão é uma palavra secreta que toca quem olha, quem escuta...

a imagem destas mãos é um lugar onde imagino despertar a evidência, as palavras mais humildes por mais claras....


Gisela Ramos Rosa 10-10-2010