08 janeiro, 2011

ancorados no espaço a um ponto de luz,

© Jorris Martinez

tentei explicar-te como os mundos se cruzam, durante a travessia, enquanto resumíamos a dor naquele despertar de espelhos.......lembras-te como os nossos dedos deslizavam suavemente na superfície da pedra negra que apanhei à junto ao mar? e tu repetias-me incessantemente “é no mar das descobertas que tenho o meu olhar”....acordo muitas vezes na planície desse pensamento, como se estivesse dentro de ti....ou tu dentro de mim....ancorados no espaço a um ponto de luz, sem vazio nem perda,......e dizias-me “tenho o mar no meu olhar”.....tentei explicar-te, de novo, que atravessávamos o núcleo de um sonho de semelhanças onde a paisagem do caminho tinha as mãos juntas...e tu repetias “é no mar que saro as minhas feridas”...

Com a memória do espaço que separa as mãos fecho-as para nelas fecundar um olhar ou um silêncio com o espanto da criança que segura um pássaro olhando a janela com os reflexos do Mar...

Gisela Ramos Rosa, 08-01-2011


12 dezembro, 2010

e tu eras em mim a outra face

... symbiosis ...
© Marian Garai

“Parece-me ter-te conhecido antes de me conhecer” (Melandro, em Maeterlinck)

...quando abri a janela o mundo era o mar que nos olhos habita, pousei as mãos devagar sobre o umbral e avistei o tempo a desaguar na foz do rio.... disseste-me que a cor das águas mudava porque o corpo da montanha se misturava com o sal do mar onde os cardumes vagam....era um tempo branco com o traçado secreto dos animais que voam....era o meu rosto dividido no meio das águas... mulher e ventre ave e infinito...era em mim a outra face, o suor do condor elevando-me num arroubo místico....eu, tu mulher e pássaro rasando as águas e os muros... puros, impuros, das visões trazidas pelo corpo e pela alma através dos silêncios e dos líquenes como pupilas olhando a saliva, os dedos e a pele....

...agora sei que há no mar o olhar de um animal veloz que percorre o sonho dos pássaros que respiram no interior das águas... incapaz de me distinguir de ti, anjo , terra, mulher ou pássaro, ventre ou asa....no seio do vale percorrendo a foz como uma barca, traçando o voo peregrino do condor ...


Gisela Ramos Rosa, 12-12-2010



24 outubro, 2010

com a intensidade das mãos sobre as mãos

Waiting at the window
© Jennifer Alder


É desta janela que olho para ti com a intensidade dos dedos, dos olhos, da face, das mãos sobre as mãos.........numa espécie de plano sem linha há palavras que nascem como um caminho... palavras encostadas à concha do tempo , vejo-as multiplicarem-se no texto unindo a planície e o silêncio a um nome...no texto transformo o coração....

quando os raios visuais se desviam por neles não caber a minha intensidade, é nas palavras que a minha voz se funde com o fogo imaginando o húmus das casas por debaixo do colmo e dos muros, o outro lado da terra e das veias, do corpo anónimo que transita como se fosse um único lugar....aqui transformo o coração....

Desta janela lembro o sol que me espreita através do teu rosto, acrescento-me ao teu texto, um outro tacto onde colho uma rosa e o vento....até que os dedos me devolvem a superfície da folha e do poema que se abriu com o calor das nossas mãos.... é nesta página que encontro a bússola repentina que me oleia o coração...


Gisela Ramos Rosa, 24-10-2010

10 outubro, 2010

porque as acções tal como a água se repetem

Pools
© Daniel Bernal

a água que estas mãos seguram revela como impossível é reter a fluidez....observa os círculos concêntricos, eles propagam-se em leves ondas quando a água cai sobre a outra água....ainda que não consigas ver, o mesmo acontece nas mãos sujeitas ao peso da água.... por mais leve que seja uma substância, uma acção, um som, uma palavra, há um efeito que se produz num outro corpo ou objecto que tocamos ou a que nos dirigimos, uma ressonância que multiplica a água e o movimento, harmonizando ou distorcendo....

por exemplo....se mergulhássemos todas as palavras perversas, todas as acções perversas, na harmonia destas mãos, a sombra traiçoeira daria lugar à transparência......escrever é pedir às mãos que inundem e derramem as ideias mais altas sobre a página, lugar concêntrico onde a conversão é uma palavra secreta que toca quem olha, quem escuta...

a imagem destas mãos é um lugar onde imagino despertar a evidência, as palavras mais humildes por mais claras....


Gisela Ramos Rosa 10-10-2010




03 outubro, 2010

quando a mente e o coração se ligam


Pintura de Nujen Daxwaz (Սթի Զ Դիլ)


Hoje acordei com a palavra sentimento na palma das mãos. Não creio que tenha sido por acaso que a associei a este quadro de uma mulher que olha, através do silêncio, as cores que a criaram com os traços de um fogo insuspeito. Qualquer rosto é um lugar onde podemos morar no instante em que o pensamos....rosto ou palavra, traço ou rosto...como queiras....é, também, um lugar de impressões onde se tece uma consciência íntima de emoções e projecções. Se quiseres poderás sentir-me a construir o olhar com que olho este quadro....basta que libertes os sentidos e sintas as tintas a conjugar a transparência da forma. As tintas unem-se para criar...ligando, diferenciando... nada é opaco se sentirmos a espessura do mundo, os traços do mundo, as pessoas do mundo, os quadros do mundo, os olhos do mundo....não descures as sensações....há um segredo que no quadro se tece......há uma secreta intuição perceptiva por detrás da pele...

Hoje acordei com uma palavra na palma das mãos. Uma palavra que se estende no texto, uma espécie de abundância vinda do coração.....um sentimento em ligação...
Hoje acordei com a palavra sentimento nas minhas mãos...

Gisela Ramos Rosa, 03-10-2010

19 setembro, 2010

chamo-lhe coração o lugar-fonte da criação

Poetes - HANDS by Annaserrat


Sabes, há nas mãos dos poetas, da fotógrafa Anna Serrat, uma pausa melancólica para escrita que me faz chegar até ti....fixei-me no modo como uma das mãos segura a pena desenhando minuciosamente cada sinal da escrita e o poder revelador da tinta depositada no tinteiro que a outra mão segura com ajuste e nitidez ...com os nós e os dedos dobrados na folha em branco.... sim, é a partir da folha em branco que te quero enviar a imagem dos extremos que o horizonte humano abraça...

Ainda agora li uma passagem de Ortega Y Gasset referindo que a realidade jamais nos é dada a ver como um todo, mas como uma unidade marcada pela ausência, pela não-presença....e é neste jogo de parcialidades que a vida humana vai tomando uma forma sempre incompleta que se completa em cada movimento da acção presente...onde o futuro pode ser recriado......viver é pois potenciar a origem desenhada na alma....aquela a que os poetas chamam “desejo” e os filósofos “razão vital” ….chamo-lhe coração o lugar-fonte da criação, nostalgia e confiança ligadas por um fluxo de rio, uma aparente brancura, um vazio que se preenche sempre que o passado cede a sua liberdade ao presente.....na condição última de que nada nos é dado definitivamente (Bachelard)... é nesse estado puro, da folha em branco, que os poetas repousam a sua sede e o sol com os dedos dobrados no papel onde a tinta revela e inunda ... repara como a vida é um texto (Geertz) em permanente construção e tu a folha escrita e reescrita pelos ciclos e pelas estações sucedendo-se.....olha atentamente a folha em branco nela encontrarás o meu nome e o teu....


Gisela Ramos Rosa, 19-09-2010



Anna muito obrigada pela tua imagem das mãos e pela mensagem nela contida....un grande abrazo!

04 setembro, 2010

pousa os olhos devagar sobre o silêncio


Dragan Jovancevic
Self



...e depois do instante perguntar-me-ás em que lugar nos situamos na sequência dos ponteiros e da roda a girar.... e sei que a resposta estará nas gotas do rio, no coração e nos sismos....mas também nos grãos de areia que o sol amanhece levedando a terra...e dir-te-ei: pousa os olhos devagar sobre o silêncio quando o pensamento for o do chão a nascer.

...haverá um eixo de estrelas e de astros orientando os ponteiros para as constelações, haverá uma ligação profunda do universo....saberemos então que somos sombras de uma luz maior que incessante revela....matéria, espírito e Amor, um grito no seio da esfera renovando as agulhas em movimentos leves......num desenho breve do que somos: espaço e tempo unidos pelo Amor, dimensões da travessia em que os ponteiros desfasados são sinais do movimento onde tudo acontece....eu e tu como um lugar dentro deles e então as nossas mãos encadeadas e exactas poderão conceber a palavra no interior do tempo ...


Gisela Ramos Rosa, 5-09-2010

28 agosto, 2010

entre a superfície e o Sol

Shadows of summer II
© Monique


Assim o sonho faz falar tudo aquilo que em mim não é estranho, estrangeiro...

Roland Barthes, O prazer do texto p. 107


...gosto das sombras porque me permitem reconstruir a luz....a leve noção do corpo, a silhueta que desenha a posição entre a superfície e o Sol....é serena a atitude quando olho o momento em que a água se refaz compondo a sombra, atenuando a espessura entre as mãos....repouso os ombros ao inclinar o vaso para outros braços, para a ligação entre as formas....e há como um molhar de alma sempre que a água inunda o meu coração.... assim posso escrever com os nomes dos Sonhos refazendo a luz sempre que a palavra me der o prazer da sombra e da água entre os dedos...


Gisela Ramos Rosa, 28-08-2010

22 agosto, 2010

tragam-me os sonhos sem história

Lost generation - (Irão)
© Navid Haghighi


Ofereçam-me o sonho e o tempo de saber quem sou
no meu corpo há um lenço que encobre a criança entre os homens e as mulheres
guardo ainda nos meus olhos uma vaga aliança uma ascese
um olhar antigo num prisma de criança

tragam-me os sonhos por revelar para que possa chegar à terra natal
depois da experiência e não antes de tudo começar
permitam-me os frutos e as cores das palavras mais primitivas

tragam-me os sonhos sem história, a voz do pessoas, os rostos todos
tragam-me a obra humana capaz de mudar o real e o mundo


Gisela Ramos Rosa, 22-08-2010

15 agosto, 2010

os mesmos belos barcos de papel

© Monique



Quero bordar esta página com o corpo de onde os olhos e os membros se adiantam....pensando na evidência e nos ecos gerados com o significado da palavra verdade.... dobro as páginas uma a uma moldando o papel até conseguir encontrar a forma dos barcos que me trouxeram aqui…..anulo o silêncio quando me impedem de navegar nesse território imenso em que nasci....não me importam os punhos, as vozes nem a parede onde alguns deixam a sua marca alienada... saberei modelar os cabelos com as tranças que afago com ideias serenas....e com a paz dos dedos articulo levemente as mãos desenhando o jeito de olhar a palavra verdade....bebo-a como se fosse o elixir da viagem, ainda que continue a construir os mesmos belos barcos de papel...
Gisela Ramos Rosa 15-08-2010

09 agosto, 2010




handfull of love...
© Christopher Stanczyk

28 julho, 2010

...a possibilidade do sol

Red line
© Izidor Gasperlin



Sempre que te encontro acordo a possibilidade do sol poder atravessar os campos da pele e da palavra.....uno-me lentamente aos rumores, aos sons entoados como gestos leves de silêncio que fixo ao olhar.....estendo-me a um campo que espera que eu nasça no meio da palavra como um fruto secreto.....separo o mistério da sede... escrevo com a palavra que povoa o teu nome...

Gisela Ramos Rosa, 28-07-2010



25 julho, 2010

Esta ciência de inocência e água

António Ramos Rosa a escrever, 23-07-2010

Nasceu um novo espaço para a expressão de António Ramos Rosa

O título do Blogue é um verso seu do poema Animal Olhar, Ocupação do Espaço - 1963

estão convidados a visitar

Esta ciência de inocência e água (ver aqui)

18 julho, 2010

um reflexo do sol e da matéria tangível

Reflections of Working Men
© Dennis Bautista


imagina o teu corpo como uma gravura que o tempo revela.... um reflexo do sol e da matéria tangível, sulcada pelo tacto...esse encontro da pele que se despe e reveste como água polarizada por uma luz contínua, passagem elemental, vida .....repara como o ofício esculpe as figuras encarregando-se do pormenor dos sulcos cavados em silêncio...um buril talhando docemente a cintura, a ponta seca escavando reentrâncias nos dedos, ou mesmo a maneira negra de dizer a superfície da pele.... há uma matriz nos ombros e nos membros que suportam e manipulam os objectos do mundo...e é suposto que o suporte tenha fibras e contra-fibras reversas no goivado....e o corpo mais parece um solo arável onde tempo matéria e espírito produzem imagens com a espessura do sol e da sombra....imagina o teu corpo uma gravura grafada pela linha de água dos meus olhos...imagina-me pescadora, cana em flor, hera esculpida de palavras e silêncios...

16 julho, 2010

...no interior do teu nome

Tell me about yourself!!!
© Nicolino Sapio



sou flor e muralha na manhã em que procuro a espessura do teu nome....


Gisela Ramos Rosa, 17-07-2010

10 julho, 2010

das plantas que se repetem com o labor das mãos


green effort
© Toomaj Zangooei


...se me perguntares porque repito quase sempre o ofício das mãos quando me expresso... não poderei dar-te a resposta imediata que se calhar desejas....mas poderei trazer as mãos ao cimo da água com o labor profundo das ilhas e o sabor saliente das barcas que atravessam rios colhendo o fruto das sementes antigas que a água transformou.... há, também, todo um contexto onde os pés e as mãos se podem cruzar ou amparar, com saberes diferentes....haverá como imaginas uma repetição cíclica nas plantações, na busca mais antiga do alimento....por isso escolhi esta imagem , com um esforço verde segundo o autor, onde poderás encontrar a planta verde repetida e separada por espaços vitais semelhantes....sim, os necessários à sua sobrevivência....e se olhares a mesma plantação de longe, poderás ver outras imagens, com a perspectiva secreta dos olhos.......a mulher que colhe o fruto com as mãos.....o amor que se repete com um afago, em qualquer lugar, para equilibrar as dificuldades....e ainda se quiseres o reflexo da mãe inclinada sobre o ventre alcançando o equilíbrio da água onde se dá a procriação.....creio que tudo se gera a partir da mãe e da terra...do desejo e das mãos....

Gisela Ramos Rosa, 10-07-2010

05 julho, 2010

04 julho, 2010

Waking Life - dos sonhos







Estes excertos sobre o Existencialismo e a Linguagem são reflexões sugeridas no filme Walking Life - O despertar da vida do Realizador Richard Linklater. O filme apresenta-nos ideias de Platão, Aristóteles, Nietzche, Jean Paul Sartre, e é todo construído em diálogos filosóficos muito interessantes. Foi filmado com actores reais e cada cena foi redesenhada com o auxílio de um computador, dando um aspecto vectorizado a umas cenas e de mão-livre noutras. Muito interessante.

02 julho, 2010

como um poema-espelho



















Imagens de Heduardo Kiesse (ParadoXos )(ver aqui) a quem muito agradeço a cedência destas composições de criatividade ímpar...



...nunca sei por que palavra encetar o sentido dos dedos que se encaminham na linha do que escrevo....é sempre no nada que os rumores do traço acontecem entoando sons de cascos entre silvas e só depois, um pouco acima do chão se iniciam os sinais da poeira e da palha onde o umbral é silêncio e é palavra...não importa como nem onde essa palavra se revela ....desde que produza um som e se articule harmoniosamente a um suporte que seja sonho da matéria em movimento....
...mas isto tudo para te falar sobre os abrigos que construímos desde o acto primeiro de nascer....lembras-te do desamparo do primeiro grito e da sensação de vazio em queda que os teus membros experimentaram com a projecção do ventre materno que te fez chegar ao mundo? e como esquecer aquelas mãos que te tocaram o corpo erguendo-o como um animal vertical em direcção ao sonho?

...penso naqueles dois seres imaginando-se...sentindo a origem e a força do amor....as entranhas da terra, a união ao espaço....esse acto primordial que reflectirá (re)produzindo essa imagem infinitamente...

.....sim, somos a construção sucessiva de abrigos que se ligam como braços, fios exteriores que formam nós e que podem até atingir correntes exaustas de uma escada já sem degraus....

há um abrigo por dentro que pode equilibrar essa forma de gravidade íntima, uma espécie de extensão infinita entre as tuas mãos vazias e o que podes segurar....a voz que no interior se ergue como uma flor serena...a sede que só tu podes saciar com o ofício das mãos ....um poema....um abrigo de papel, um abrigo de tinta, um abrigo de todos os pensamentos - do nascimento à morte, sem te deteres em qualquer deles....

poderás ser o teu abrigo... um verbo tranquilo, o fogo da casa...próximo de ti... um poema-espelho...

Gisela Ramos Rosa, 03-07-2010



26 junho, 2010

a dança do traço, no espaço


































O pensamento é um movimento que pode organizar o espaço elevando um traço, um verso, um poema...


Gisela Rosa
26-06-2010








Desenho de António Ramos Rosa - 2003 - Elogio gráfico de Gisela - caneta tombo em folhas de papel A4.