12 dezembro, 2010

e tu eras em mim a outra face

... symbiosis ...
© Marian Garai

“Parece-me ter-te conhecido antes de me conhecer” (Melandro, em Maeterlinck)

...quando abri a janela o mundo era o mar que nos olhos habita, pousei as mãos devagar sobre o umbral e avistei o tempo a desaguar na foz do rio.... disseste-me que a cor das águas mudava porque o corpo da montanha se misturava com o sal do mar onde os cardumes vagam....era um tempo branco com o traçado secreto dos animais que voam....era o meu rosto dividido no meio das águas... mulher e ventre ave e infinito...era em mim a outra face, o suor do condor elevando-me num arroubo místico....eu, tu mulher e pássaro rasando as águas e os muros... puros, impuros, das visões trazidas pelo corpo e pela alma através dos silêncios e dos líquenes como pupilas olhando a saliva, os dedos e a pele....

...agora sei que há no mar o olhar de um animal veloz que percorre o sonho dos pássaros que respiram no interior das águas... incapaz de me distinguir de ti, anjo , terra, mulher ou pássaro, ventre ou asa....no seio do vale percorrendo a foz como uma barca, traçando o voo peregrino do condor ...


Gisela Ramos Rosa, 12-12-2010



24 outubro, 2010

com a intensidade das mãos sobre as mãos

Waiting at the window
© Jennifer Alder


É desta janela que olho para ti com a intensidade dos dedos, dos olhos, da face, das mãos sobre as mãos.........numa espécie de plano sem linha há palavras que nascem como um caminho... palavras encostadas à concha do tempo , vejo-as multiplicarem-se no texto unindo a planície e o silêncio a um nome...no texto transformo o coração....

quando os raios visuais se desviam por neles não caber a minha intensidade, é nas palavras que a minha voz se funde com o fogo imaginando o húmus das casas por debaixo do colmo e dos muros, o outro lado da terra e das veias, do corpo anónimo que transita como se fosse um único lugar....aqui transformo o coração....

Desta janela lembro o sol que me espreita através do teu rosto, acrescento-me ao teu texto, um outro tacto onde colho uma rosa e o vento....até que os dedos me devolvem a superfície da folha e do poema que se abriu com o calor das nossas mãos.... é nesta página que encontro a bússola repentina que me oleia o coração...


Gisela Ramos Rosa, 24-10-2010

10 outubro, 2010

porque as acções tal como a água se repetem

Pools
© Daniel Bernal

a água que estas mãos seguram revela como impossível é reter a fluidez....observa os círculos concêntricos, eles propagam-se em leves ondas quando a água cai sobre a outra água....ainda que não consigas ver, o mesmo acontece nas mãos sujeitas ao peso da água.... por mais leve que seja uma substância, uma acção, um som, uma palavra, há um efeito que se produz num outro corpo ou objecto que tocamos ou a que nos dirigimos, uma ressonância que multiplica a água e o movimento, harmonizando ou distorcendo....

por exemplo....se mergulhássemos todas as palavras perversas, todas as acções perversas, na harmonia destas mãos, a sombra traiçoeira daria lugar à transparência......escrever é pedir às mãos que inundem e derramem as ideias mais altas sobre a página, lugar concêntrico onde a conversão é uma palavra secreta que toca quem olha, quem escuta...

a imagem destas mãos é um lugar onde imagino despertar a evidência, as palavras mais humildes por mais claras....


Gisela Ramos Rosa 10-10-2010




03 outubro, 2010

quando a mente e o coração se ligam


Pintura de Nujen Daxwaz (Սթի Զ Դիլ)


Hoje acordei com a palavra sentimento na palma das mãos. Não creio que tenha sido por acaso que a associei a este quadro de uma mulher que olha, através do silêncio, as cores que a criaram com os traços de um fogo insuspeito. Qualquer rosto é um lugar onde podemos morar no instante em que o pensamos....rosto ou palavra, traço ou rosto...como queiras....é, também, um lugar de impressões onde se tece uma consciência íntima de emoções e projecções. Se quiseres poderás sentir-me a construir o olhar com que olho este quadro....basta que libertes os sentidos e sintas as tintas a conjugar a transparência da forma. As tintas unem-se para criar...ligando, diferenciando... nada é opaco se sentirmos a espessura do mundo, os traços do mundo, as pessoas do mundo, os quadros do mundo, os olhos do mundo....não descures as sensações....há um segredo que no quadro se tece......há uma secreta intuição perceptiva por detrás da pele...

Hoje acordei com uma palavra na palma das mãos. Uma palavra que se estende no texto, uma espécie de abundância vinda do coração.....um sentimento em ligação...
Hoje acordei com a palavra sentimento nas minhas mãos...

Gisela Ramos Rosa, 03-10-2010

19 setembro, 2010

chamo-lhe coração o lugar-fonte da criação

Poetes - HANDS by Annaserrat


Sabes, há nas mãos dos poetas, da fotógrafa Anna Serrat, uma pausa melancólica para escrita que me faz chegar até ti....fixei-me no modo como uma das mãos segura a pena desenhando minuciosamente cada sinal da escrita e o poder revelador da tinta depositada no tinteiro que a outra mão segura com ajuste e nitidez ...com os nós e os dedos dobrados na folha em branco.... sim, é a partir da folha em branco que te quero enviar a imagem dos extremos que o horizonte humano abraça...

Ainda agora li uma passagem de Ortega Y Gasset referindo que a realidade jamais nos é dada a ver como um todo, mas como uma unidade marcada pela ausência, pela não-presença....e é neste jogo de parcialidades que a vida humana vai tomando uma forma sempre incompleta que se completa em cada movimento da acção presente...onde o futuro pode ser recriado......viver é pois potenciar a origem desenhada na alma....aquela a que os poetas chamam “desejo” e os filósofos “razão vital” ….chamo-lhe coração o lugar-fonte da criação, nostalgia e confiança ligadas por um fluxo de rio, uma aparente brancura, um vazio que se preenche sempre que o passado cede a sua liberdade ao presente.....na condição última de que nada nos é dado definitivamente (Bachelard)... é nesse estado puro, da folha em branco, que os poetas repousam a sua sede e o sol com os dedos dobrados no papel onde a tinta revela e inunda ... repara como a vida é um texto (Geertz) em permanente construção e tu a folha escrita e reescrita pelos ciclos e pelas estações sucedendo-se.....olha atentamente a folha em branco nela encontrarás o meu nome e o teu....


Gisela Ramos Rosa, 19-09-2010



Anna muito obrigada pela tua imagem das mãos e pela mensagem nela contida....un grande abrazo!

04 setembro, 2010

pousa os olhos devagar sobre o silêncio


Dragan Jovancevic
Self



...e depois do instante perguntar-me-ás em que lugar nos situamos na sequência dos ponteiros e da roda a girar.... e sei que a resposta estará nas gotas do rio, no coração e nos sismos....mas também nos grãos de areia que o sol amanhece levedando a terra...e dir-te-ei: pousa os olhos devagar sobre o silêncio quando o pensamento for o do chão a nascer.

...haverá um eixo de estrelas e de astros orientando os ponteiros para as constelações, haverá uma ligação profunda do universo....saberemos então que somos sombras de uma luz maior que incessante revela....matéria, espírito e Amor, um grito no seio da esfera renovando as agulhas em movimentos leves......num desenho breve do que somos: espaço e tempo unidos pelo Amor, dimensões da travessia em que os ponteiros desfasados são sinais do movimento onde tudo acontece....eu e tu como um lugar dentro deles e então as nossas mãos encadeadas e exactas poderão conceber a palavra no interior do tempo ...


Gisela Ramos Rosa, 5-09-2010

28 agosto, 2010

entre a superfície e o Sol

Shadows of summer II
© Monique


Assim o sonho faz falar tudo aquilo que em mim não é estranho, estrangeiro...

Roland Barthes, O prazer do texto p. 107


...gosto das sombras porque me permitem reconstruir a luz....a leve noção do corpo, a silhueta que desenha a posição entre a superfície e o Sol....é serena a atitude quando olho o momento em que a água se refaz compondo a sombra, atenuando a espessura entre as mãos....repouso os ombros ao inclinar o vaso para outros braços, para a ligação entre as formas....e há como um molhar de alma sempre que a água inunda o meu coração.... assim posso escrever com os nomes dos Sonhos refazendo a luz sempre que a palavra me der o prazer da sombra e da água entre os dedos...


Gisela Ramos Rosa, 28-08-2010