19 setembro, 2010

chamo-lhe coração o lugar-fonte da criação

Poetes - HANDS by Annaserrat


Sabes, há nas mãos dos poetas, da fotógrafa Anna Serrat, uma pausa melancólica para escrita que me faz chegar até ti....fixei-me no modo como uma das mãos segura a pena desenhando minuciosamente cada sinal da escrita e o poder revelador da tinta depositada no tinteiro que a outra mão segura com ajuste e nitidez ...com os nós e os dedos dobrados na folha em branco.... sim, é a partir da folha em branco que te quero enviar a imagem dos extremos que o horizonte humano abraça...

Ainda agora li uma passagem de Ortega Y Gasset referindo que a realidade jamais nos é dada a ver como um todo, mas como uma unidade marcada pela ausência, pela não-presença....e é neste jogo de parcialidades que a vida humana vai tomando uma forma sempre incompleta que se completa em cada movimento da acção presente...onde o futuro pode ser recriado......viver é pois potenciar a origem desenhada na alma....aquela a que os poetas chamam “desejo” e os filósofos “razão vital” ….chamo-lhe coração o lugar-fonte da criação, nostalgia e confiança ligadas por um fluxo de rio, uma aparente brancura, um vazio que se preenche sempre que o passado cede a sua liberdade ao presente.....na condição última de que nada nos é dado definitivamente (Bachelard)... é nesse estado puro, da folha em branco, que os poetas repousam a sua sede e o sol com os dedos dobrados no papel onde a tinta revela e inunda ... repara como a vida é um texto (Geertz) em permanente construção e tu a folha escrita e reescrita pelos ciclos e pelas estações sucedendo-se.....olha atentamente a folha em branco nela encontrarás o meu nome e o teu....


Gisela Ramos Rosa, 19-09-2010



Anna muito obrigada pela tua imagem das mãos e pela mensagem nela contida....un grande abrazo!

04 setembro, 2010

pousa os olhos devagar sobre o silêncio


Dragan Jovancevic
Self



...e depois do instante perguntar-me-ás em que lugar nos situamos na sequência dos ponteiros e da roda a girar.... e sei que a resposta estará nas gotas do rio, no coração e nos sismos....mas também nos grãos de areia que o sol amanhece levedando a terra...e dir-te-ei: pousa os olhos devagar sobre o silêncio quando o pensamento for o do chão a nascer.

...haverá um eixo de estrelas e de astros orientando os ponteiros para as constelações, haverá uma ligação profunda do universo....saberemos então que somos sombras de uma luz maior que incessante revela....matéria, espírito e Amor, um grito no seio da esfera renovando as agulhas em movimentos leves......num desenho breve do que somos: espaço e tempo unidos pelo Amor, dimensões da travessia em que os ponteiros desfasados são sinais do movimento onde tudo acontece....eu e tu como um lugar dentro deles e então as nossas mãos encadeadas e exactas poderão conceber a palavra no interior do tempo ...


Gisela Ramos Rosa, 5-09-2010

28 agosto, 2010

entre a superfície e o Sol

Shadows of summer II
© Monique


Assim o sonho faz falar tudo aquilo que em mim não é estranho, estrangeiro...

Roland Barthes, O prazer do texto p. 107


...gosto das sombras porque me permitem reconstruir a luz....a leve noção do corpo, a silhueta que desenha a posição entre a superfície e o Sol....é serena a atitude quando olho o momento em que a água se refaz compondo a sombra, atenuando a espessura entre as mãos....repouso os ombros ao inclinar o vaso para outros braços, para a ligação entre as formas....e há como um molhar de alma sempre que a água inunda o meu coração.... assim posso escrever com os nomes dos Sonhos refazendo a luz sempre que a palavra me der o prazer da sombra e da água entre os dedos...


Gisela Ramos Rosa, 28-08-2010

22 agosto, 2010

tragam-me os sonhos sem história

Lost generation - (Irão)
© Navid Haghighi


Ofereçam-me o sonho e o tempo de saber quem sou
no meu corpo há um lenço que encobre a criança entre os homens e as mulheres
guardo ainda nos meus olhos uma vaga aliança uma ascese
um olhar antigo num prisma de criança

tragam-me os sonhos por revelar para que possa chegar à terra natal
depois da experiência e não antes de tudo começar
permitam-me os frutos e as cores das palavras mais primitivas

tragam-me os sonhos sem história, a voz do pessoas, os rostos todos
tragam-me a obra humana capaz de mudar o real e o mundo


Gisela Ramos Rosa, 22-08-2010

15 agosto, 2010

os mesmos belos barcos de papel

© Monique



Quero bordar esta página com o corpo de onde os olhos e os membros se adiantam....pensando na evidência e nos ecos gerados com o significado da palavra verdade.... dobro as páginas uma a uma moldando o papel até conseguir encontrar a forma dos barcos que me trouxeram aqui…..anulo o silêncio quando me impedem de navegar nesse território imenso em que nasci....não me importam os punhos, as vozes nem a parede onde alguns deixam a sua marca alienada... saberei modelar os cabelos com as tranças que afago com ideias serenas....e com a paz dos dedos articulo levemente as mãos desenhando o jeito de olhar a palavra verdade....bebo-a como se fosse o elixir da viagem, ainda que continue a construir os mesmos belos barcos de papel...
Gisela Ramos Rosa 15-08-2010

09 agosto, 2010




handfull of love...
© Christopher Stanczyk

28 julho, 2010

...a possibilidade do sol

Red line
© Izidor Gasperlin



Sempre que te encontro acordo a possibilidade do sol poder atravessar os campos da pele e da palavra.....uno-me lentamente aos rumores, aos sons entoados como gestos leves de silêncio que fixo ao olhar.....estendo-me a um campo que espera que eu nasça no meio da palavra como um fruto secreto.....separo o mistério da sede... escrevo com a palavra que povoa o teu nome...

Gisela Ramos Rosa, 28-07-2010