25 março, 2009

memória de perfis

Fotografia de Rui Manuel Machado Rodrigues (a quem muito agradeço a cedência da imagem), em http://olhares.aeiou.pt/bw_foto2644463.html



De há muito colecciono deslumbrado
memória de perfis
corpos serenos
madrugadas de esperança
altos morenos campanários
urbanos alcantis.
Viajo pelo céu impenitente
repouso numa nuvem reclinado
retomo a marcha sempre apaixonado
astronauta de sonhos infantis


Lagoa Henriques, in Jornal de Letras 11-24 Março 2009, p. 10

23 março, 2009

Aqui

Fotografia de Maria José Amorim (a quem muito agradeço a imagem), em http://olhares.aeiou.pt/penso_foto1774958.html



Hay fragmentos de palabras adentro de todas las cosas, como restos de una antigua siembra.

Roberto Juarroz, Los extremos de la palabra

21 março, 2009

Uma pausa de luz

Desenho de António Ramos Rosa 2001

Desenho de António Ramos Rosa, fotografia de Gisela Rosa - 2009



Vegetações de relâmpagos,
geometrias de ecos:
sobre a folha de papel
o poema faz-se
como o dia
sobre a palma do espaço


Octávio Paz



* o título deste post é um verso da autoria de Octávio Paz

19 março, 2009

Tous simplement border le monde


António Ramos Rosa a desenhar, fotografias de Gisela Rosa


Dans nos paroles, dans nos mots
le vide accède à sa propre dépossession

Jean Louis Giovannoni, Pas Japonais


O título deste post é um verso da autoria de
Jean Louis Giovannoni.

18 março, 2009

O poema é a semelhança

António Ramos Rosa a ler, fotografia de Gisela Rosa, Outubro de 2008



Le poème perpétue un instant de la vie du mot, une sourire, une rencontre.

Edmond Jabès, Je Bâtis ma demeure, p. 306



* o título deste post é um verso de Edmond Jabés (idem, p. 309)

17 março, 2009

O arco-Íris

O olhar do Hélder, fotografia de Gisela Rosa


Os olhos reflectem dois mundos em movimento, o interior (alma) e o exterior (luz)...Hélder significa luz, este olhar é do meu filho...

15 março, 2009

O corpo dança a gramática do sentido

Pássaro livre, fotografia de António Gil, em http://olhares.aeiou.pt/passaro_livre_foto2527917.html


No começo era o movimento.

Não havia repouso porque não havia paragem do movimento. O repouso era apenas uma imagem demasiado vasta daquilo que se movia, uma imagem infinitamente fatigada que afrouxava o movimento. Crescia-se para repousar, misturavam-se os mapas, reunia-se o espaço, unificava-se o tempo num presente que parecia estar em toda a parte, para sempre, ao mesmo tempo. Suspirava-se de alívio, pensava-se ter-se alcançado a imobilidade. Era possível enfim olhar-se a si próprio numa imagem apaziguadora de si e do mundo.

Era esquecer o movimento que continuava em silêncio no fundo dos corpos. Microscopicamente. Porque, como se passaria do movimento ao repouso se não houvesse já movimento no repouso?

No começo não havia pois começo.

No começo era o movimento porque o começo era o homem de pé, na Terra. Erguera-se sobre os dois pés oscilando, visando o equilíbrio. O corpo não era mais que um campo de forças atravessado por mil correntes, tensões, movimentos. Buscava um ponto de apoio. Uma espécie de parapeito contra esse tumulto que abalava os seus ossos e a sua carne.

Então a linguagem nascia num relâmpago, os sons combinavam-se, as palavras encadeavam-se, os sentidos incendiavam-se, a marcha desencadeava os seus passos na alegria, e hesitava na angústia de cair. A vida transbordava.

O bailarino retoma o seu corpo nesse momento preciso em que perde o seu equilíbrio e se arrisca a cair no vazio. Luta, jogando tudo por tudo: está em jogo a sua vida, a sua liberdade de bailarino, a sua luz. Faz apelo ao movimento, que proporcionará claridade e estabilidade à sua extrema agitação interior. Por meio de movimento domará o movimento: com um gesto libertará a velocidade que arrebatará o seu corpo traçando uma forma de espaço. Uma forma de espaço-corpo efémero, por cima do abismo.(...)

José Gil, Movimento Total - O corpo e a Dança, Prólogo, pp.13-14, 2001



* o título deste post foi extraído do livro de José Gil (idem, p.119) acima referido.