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16 junho, 2009

hei-de dizer o nome


Vento, Desenho/poema de António Ramos Rosa, 2005


Com as árvores e com as águas
partilho os meus pensamentos.
Manuseio estas palavras
como se fossem minhas
para as usar como protesto,
como absolvição: boca
devorando a própria fome.
Aguardo um sinal que decifre
o nomadismo da memória
e rompa a cumplicidade do tempo.

Graça Pires, Uma extensa mancha de sonhos, p. 45 - 2008


* O título deste post é um verso de Graça Pires, p. 12 do mesmo livro

11 junho, 2009

as palavras desenham-se na parede



Desenho de António Ramos Rosa, caneta tombo em folha de papel, 2008


É um jogo? Ainda não...
Serei eu? Em que objecto?
Aqui na mão, o movimento
ou corda de água ou sol por dentro.
Ainda não, e já poema?
Desejo só a lentidão
que abre o espaço para a mão.

...Que se desata no silêncio
e que ao silêncio dá a forma
do espaço vivo entre objectos.
Forma do gosto, da língua e pulso,
uma carícia de atenção.


António Ramos Rosa, em O Chão do Sopro, Respirar a Sombra Viva, p. 23, 1975



*o título deste post é um verso do poema com o mesmo título de ARR, p. 49 do mesmo livro.

05 junho, 2009

como o voo livre das andorinhas



António Ramos Rosa, vídeo de Gisela Rosa - Abril de 2009

02 junho, 2009

aqui respiro




Pela Janela de Gisela

Contigo a meu lado eu estou contigo
tu és uma fonte de cintilante frescura

A tua amizade é uma estrela subtil
a tua atenção é a lâmpada de uma flecha
estridente o teu sorriso estala
como uma estilha colorida
que reacende a minha inocência adolescente

Contigo a meu lado o tempo tem outro espaço
e o aroma de uma fábula de outra vida
de uma cor leve de laranja

António Ramos Rosa, Vasos Comunicantes, diálogo poético com Gisela Rosa, p. 112, 2006...

26 maio, 2009

um lugar fora do tempo


Reflections, Omar Gencal, em http://1x.com/photos/nature/24353/


Contra el bulicio invento la Palabra, libertad que se
inventa y me inventa cada día.


Octávio Paz


Naquele caminho avisto pela manhã
o estuário do Tejo a desaguar no mar
o olhar ondula no horizonte das gaivotas
e nos rostos que se cruzam silenciosos
prisioneiros de pensamentos

rumo à rua mais íngreme meus passos caminham
para uma porta paralela do tempo
onde há uma praça com um lento jardim verde
e no seu centro minha alma vagueia sem peso
as árvores antigas dão guarida às rolas
e nas ramagens mais extensas os esquilos cor de fogo
pulam em movimentos graciosos

na casa encontro o lugar de um silêncio
as paredes articulam vidas em trânsito
e as árvores transparecem amarelas vistas de dentro

na casa o silêncio é um lugar que conquista
as portas que se abrem para o corredor
e ao fundo entro na portada que me leva
à espiral da linguagem à suspensão do tempo
onde não há relógios que confiram o valor
da magia encontrada nas mãos de um poeta

Gisela Rosa, Vasos Comunicantes Diálogo Poético com António Ramos Rosa, p.75, 2006.

23 maio, 2009

sou para ti uma língua que respira


Keith Haring, acrilic on canvas, 1984


Gisela tu és filha da terra e irradias
pelo desejo de
seres um astro vivo de uma sede singular
imaginária no teu sangue enevoado
imediata pela ferida verde da tua voz
e pelo verbo
de uma serpente esguia
que une o sentido
à inocência longínqua de um incerto enigma

Gisela
o poema é uma estranheza
uma diferença extrema e indiferente
entre um grito e uma sombra
o esplendor de um fruto de um rio branco
em cada palavra o timbre de uma pedra
o indivisível timbre de uma pedra
e a chama de um vento de uma sede irreparável

António Ramos Rosa, Vasos Comunicantes Diálogo poético com Gisela Rosa, p. 40, 2006


* o título deste post é um verso de António Ramos Rosa, Vasos Comunicantes, p. 102.

05 maio, 2009

deixo que a lua se instale em minha pele,


Desenho de António Ramos Rosa, em Cartolina A3, 2005.


Surpreendida por um caminho sem tempo,
deixo que a lua se instale em minha pele,
lasciva e húmida. Habito uma ilha suspeita
de servir de abrigo a veleiros perdidos.
E digo: há um mar horizontal na solidão
de uma mulher, com as mãos cansadas
de sulcar distâncias em caminhos de espuma.

Graça Pires, Uma Certa Forma de Errância, p. 13



* O título é um verso do poema de Graça Pires

29 abril, 2009

a lenta luz deste poema


Desenho de António Ramos Rosa (2004), caneta tombo em papel A4

Este poema é desenhado com as mãos
de todas as sensações contidas
com os dedos que tocam a grafia desértica da lua
e sentem a leveza branca das montanhas
e a luz vagarosa que se expande

sinto na boca o sabor de um fruto fresco
suspenso em cada sílaba de sal
os meus gestos desenham calmas marés
e nos ombros repousa uma melodia inacabada
quero unir a lenta luz deste poema
às carícias tímidas de um arbusto
que dança levemente com a folhagem

Gisela Ramos Rosa

25 abril, 2009

O que não pode ser dito


António Ramos Rosa a ler o seu livro "O que não pode ser dito", fotografia de Gisela Rosa (24-04-09, no meu sótão).


Reprodução de manuscrito de António Ramos Rosa - transcrição de excerto de Bernard Noel.

22 abril, 2009

Pero qué hay adentro de los números?


Desenho de António Ramos Rosa, Fotografia de Gisela Rosa - 2009


Qué hay detrás de los números?
Y qué hay delante?

Todas las cosas se mueven,
hasta las piedras y los muertos.
Los números no se mueven:
sólo dejan su lugar a otros números.
Pero cuál es el lugar de los números?

Cuando los escribimos sobre un papel
les inventamos un lugar,
como ellos nos inventan a veces
un lugar a nosotros.

Todas las cosas quieren reemplazarnos,
pero los números no.
Se parecen al ser:
no están en ningún lugar.

Pero qué hay adentro de los números?
El simulacro de la medida
y las máscaras de los signos
nos han hecho olvidar su sustancia.

Roberto Juarroz, Onzième - POÉSIE VERTICALE, édition bilingue, 1990



* Não poderia colocar este poema sem contar que foi o meu tio António Ramos Rosa que me o deu a ler na última visita que lhe fiz. Não foi a primeira vez que o poeta me revelou o seu interesse na reflexão sobre os números, pelo valor que lhes atribuímos em termos de conteúdo e/ou forma simbólica. Linhas no espaço? Talvez. Abstrações que estão em todo o lado (Pitágoras), por certo. Já Galileu em Il Saggiatore dizia que "o Universo está escrito com linguagem matemática"..

Este poema de Juarroz serviu mesmo de mote a um poema que o meu tio fez e me ditou. Associo ao poema de RJ um desenho de António Ramos Rosa feito há duas semanas atrás com tinta-da-china.

**O título é um verso de Roberto Juarroz.

15 abril, 2009

L´imperfection est la cime


Desenho de Gisela Rosa, tinta-da-china em papel, Abril de 2009


"L´imperfection est la cime"

Yves Bonnefois, citado por António Ramos Rosa ao ver este desenho

12 abril, 2009

Não posso adiar este abraço...


Tradução do poema em língua árabe - fotografia de Gisela Rosa, obtida a partir da revista Poesia do Sec. XX com António Ramos Rosa ao fundo, organização de Ana Paula Coutinho Mendes, ULP - 2005.


Não posso adiar o amor para outro século
Não posso
Ainda que o grito sufoque na garganta
Ainda que o ódio estale e crepite e arda
Sob montanhas cinzentas
E montanhas cinzentas
Não posso adiar este abraço
Que é uma arma de dois gumes
Amor e ódio

Não posso adiar
Ainda que a noite pese séculos sobre as costas
E a aurora indecisa demore
Não posso adiar para outro século a minha vida
Nem o meu amor
Nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração

António Ramos Rosa


*Este poema foi publicado em várias línguas, entre elas a romena, a búlgara e a russa, na revista Poesia do Sec. XX com António Ramos Rosa ao fundo, organização de Ana Paula Coutinho Mendes, da Univ. de Letras do Porto - 2005.

07 abril, 2009

O que sente o poeta quando desenha?



António Ramos Rosa a desenhar com tinta-da-china, ontem.
Fotografias de Gisela Rosa.

Ontem de visita aos meus tios António e Agripina resolvi levar o pincel japonês e a tinta-da-china para que o poeta pudesse experimentar o desenho com outros instrumentos. A poesia em forma de traços com rasto foi surgindo e acabou mesmo por preencher um bloco Canson A5. As mãos adoraram a aventura e a alma do poeta pôde transcender-se na página aberta a novas formas de risco criativo com a tinta líquida da china e os inesperados rastos do pincel.

Deixo aqui a resposta do poeta em vídeo à pergunta que lhe coloquei no final bem como uma das sequências que resultou neste dia:


O que é que o tio sente quando desenha?



António Ramos Rosa, vídeo de Gisela Rosa (ontem).


*peço desculpa pela qualidade da imagem que não é das melhores.

06 abril, 2009

onde a nudez habita


Bambu e a minha reprodução de Picasso, fotografia de Gisela Rosa 2008.



Tudo começa aqui
no desamparo do horizonte nulo
aqui nasce o corpo no seu espaço virgem
de súbito uma espiral se ergue
ou quase o arco ainda entre o céu e o céu

António Ramos Rosa, Dinâmica Subtil, p. 41
.



* O título deste post é um verso de António Ramos Rosa do livro acima referido.

02 abril, 2009

Corps Écrit


Pedras Vivas, o lugar do poeta António Ramos Rosa, fotografia de
Gisela Rosa Março de 2009



....No, no sueno. Vigor
De creación concluye
Su paraíso aquí:
Penumbra de costumbre....

Jorge Guillén, "Más Allá" in Cántico


* O título deste post é também o título de uma revista de literatura francesa "Corps Écrit"

31 março, 2009

Figurações




Desenhos de António Ramos Rosa - 2009.


Há qualquer coisa de maravilhosamente antigo nos desenhos de Ramos Rosa. artesanal,vindo de dentro,à mão,com a alma.
Sem teclas, de qualquer modo!


José Manuel Vilhena
(comentário a este post que aqui reproduzo)



Em poucos traços, a captura da alma
.

mariab (reprodução de comentário a este post)

* O título deste post é o nome de um livro de António Ramos Rosa
de 1979.

29 março, 2009

e estas ilhas brancas suavíssimas

Fotografia de Steve McCurry, Paquistão

Fotografia de Steve McCurry, Índia, em http://www.art-dept.com/artists/mccurry/


O título deste post é um verso do poema de António Ramos Rosa colocado no post anterior ...

28 março, 2009

Mas o mundo é ainda a substância

Pol-e Khomri, Afeganistão 1992. Fotografia de Steve McCurry

O mundo é um rumor de martelos e de gritos de criança
e é este vazio fundo de tristeza
de quem se extraviou desde a origem
Mas o mundo é ainda a substância
solar e a serenidade incandescente
de um mistério para sempre silencioso
E mais que o rumor o mundo é a distância
que através dos ruídos faz sentir a monótona
imensidade que se recolhe quanto se prolonga
E sentimos muito longe a esfera iluminada
ainda que envolvidos pela paz solar
e pelo vazio puro de uma luz inextinguível
Nada é imediato já Nenhuma urgência
Que permaneça só a solidão tão nítida
e estas ilhas brancas suavíssimas
cuja frescura se pressente entre a folhagem
E que continue o murmúrio luminoso
na sua língua de silêncio e de espaço
para que nos nimbe da sua claridade

António Ramos Rosa, O Livro da Ignorância (1988, p. 84)

21 março, 2009

Uma pausa de luz

Desenho de António Ramos Rosa 2001

Desenho de António Ramos Rosa, fotografia de Gisela Rosa - 2009



Vegetações de relâmpagos,
geometrias de ecos:
sobre a folha de papel
o poema faz-se
como o dia
sobre a palma do espaço


Octávio Paz



* o título deste post é um verso da autoria de Octávio Paz

19 março, 2009

Tous simplement border le monde


António Ramos Rosa a desenhar, fotografias de Gisela Rosa


Dans nos paroles, dans nos mots
le vide accède à sa propre dépossession

Jean Louis Giovannoni, Pas Japonais


O título deste post é um verso da autoria de
Jean Louis Giovannoni.