23 janeiro, 2011

como desenhar um rio inscrito na pele?

Jennifer Alder


escrever sobre um rosto é traçar numa tela a matéria do silêncio
como desenhar um rio inscrito na pele?
há palavras na boca que dizem a palavra, o início, há palavras que dizem pão,
há palavras no rosto há palavras há rosto há um rosto de palavras
na minha mão,

há uma fricção entre o rosto do mundo e o mundo do rosto
há a Voz de um rosto que resiste e revela por entre as mãos

há num rosto um olhar e um espelho,
um animal insubmisso, há uma substância mental
num rosto encontro um mapa de alianças, um fluxo de água
num rosto confluem poema e tempo
uma melodia de palavras em gestação

Gisela Ramos Rosa 23-01-2011


13 janeiro, 2011

quem seria Gisela antes de ser Gisela?



A partir de uma palavra perdida


Antes de ti poderia eu lembrar-me de ti?

O que serias tu antes de ti?
Poderia eu ter-te criado
Se não te tivesse encontrado?
de onde partiria o meu canto
se não fosse do teu nome
que é uma estrela e não um emblema
nem uma bandeira
Poderia eu criar-te no meu arco vazio?
Sem a respiração do teu rosto?
Envolvido numa cabeleira intuitiva
Quem seria Gisela antes de ser Gisela?

António Ramos Rosa, 20-08-05 (inédito)

08 janeiro, 2011

ancorados no espaço a um ponto de luz,

© Jorris Martinez

tentei explicar-te como os mundos se cruzam, durante a travessia, enquanto resumíamos a dor naquele despertar de espelhos.......lembras-te como os nossos dedos deslizavam suavemente na superfície da pedra negra que apanhei à junto ao mar? e tu repetias-me incessantemente “é no mar das descobertas que tenho o meu olhar”....acordo muitas vezes na planície desse pensamento, como se estivesse dentro de ti....ou tu dentro de mim....ancorados no espaço a um ponto de luz, sem vazio nem perda,......e dizias-me “tenho o mar no meu olhar”.....tentei explicar-te, de novo, que atravessávamos o núcleo de um sonho de semelhanças onde a paisagem do caminho tinha as mãos juntas...e tu repetias “é no mar que saro as minhas feridas”...

Com a memória do espaço que separa as mãos fecho-as para nelas fecundar um olhar ou um silêncio com o espanto da criança que segura um pássaro olhando a janela com os reflexos do Mar...

Gisela Ramos Rosa, 08-01-2011