... symbiosis ...
© Marian Garai
“Parece-me ter-te conhecido antes de me conhecer” (Melandro, em Maeterlinck)
...quando abri a janela o mundo era o mar que nos olhos habita, pousei as mãos devagar sobre o umbral e avistei o tempo a desaguar na foz do rio.... disseste-me que a cor das águas mudava porque o corpo da montanha se misturava com o sal do mar onde os cardumes vagam....era um tempo branco com o traçado secreto dos animais que voam....era o meu rosto dividido no meio das águas... mulher e ventre ave e infinito...era em mim a outra face, o suor do condor elevando-me num arroubo místico....eu, tu mulher e pássaro rasando as águas e os muros... puros, impuros, das visões trazidas pelo corpo e pela alma através dos silêncios e dos líquenes como pupilas olhando a saliva, os dedos e a pele....
...agora sei que há no mar o olhar de um animal veloz que percorre o sonho dos pássaros que respiram no interior das águas... incapaz de me distinguir de ti, anjo , terra, mulher ou pássaro, ventre ou asa....no seio do vale percorrendo a foz como uma barca, traçando o voo peregrino do condor ...
Gisela Ramos Rosa, 12-12-2010