24 outubro, 2010

com a intensidade das mãos sobre as mãos

Waiting at the window
© Jennifer Alder


É desta janela que olho para ti com a intensidade dos dedos, dos olhos, da face, das mãos sobre as mãos.........numa espécie de plano sem linha há palavras que nascem como um caminho... palavras encostadas à concha do tempo , vejo-as multiplicarem-se no texto unindo a planície e o silêncio a um nome...no texto transformo o coração....

quando os raios visuais se desviam por neles não caber a minha intensidade, é nas palavras que a minha voz se funde com o fogo imaginando o húmus das casas por debaixo do colmo e dos muros, o outro lado da terra e das veias, do corpo anónimo que transita como se fosse um único lugar....aqui transformo o coração....

Desta janela lembro o sol que me espreita através do teu rosto, acrescento-me ao teu texto, um outro tacto onde colho uma rosa e o vento....até que os dedos me devolvem a superfície da folha e do poema que se abriu com o calor das nossas mãos.... é nesta página que encontro a bússola repentina que me oleia o coração...


Gisela Ramos Rosa, 24-10-2010

10 outubro, 2010

porque as acções tal como a água se repetem

Pools
© Daniel Bernal

a água que estas mãos seguram revela como impossível é reter a fluidez....observa os círculos concêntricos, eles propagam-se em leves ondas quando a água cai sobre a outra água....ainda que não consigas ver, o mesmo acontece nas mãos sujeitas ao peso da água.... por mais leve que seja uma substância, uma acção, um som, uma palavra, há um efeito que se produz num outro corpo ou objecto que tocamos ou a que nos dirigimos, uma ressonância que multiplica a água e o movimento, harmonizando ou distorcendo....

por exemplo....se mergulhássemos todas as palavras perversas, todas as acções perversas, na harmonia destas mãos, a sombra traiçoeira daria lugar à transparência......escrever é pedir às mãos que inundem e derramem as ideias mais altas sobre a página, lugar concêntrico onde a conversão é uma palavra secreta que toca quem olha, quem escuta...

a imagem destas mãos é um lugar onde imagino despertar a evidência, as palavras mais humildes por mais claras....


Gisela Ramos Rosa 10-10-2010




03 outubro, 2010

quando a mente e o coração se ligam


Pintura de Nujen Daxwaz (Սթի Զ Դիլ)


Hoje acordei com a palavra sentimento na palma das mãos. Não creio que tenha sido por acaso que a associei a este quadro de uma mulher que olha, através do silêncio, as cores que a criaram com os traços de um fogo insuspeito. Qualquer rosto é um lugar onde podemos morar no instante em que o pensamos....rosto ou palavra, traço ou rosto...como queiras....é, também, um lugar de impressões onde se tece uma consciência íntima de emoções e projecções. Se quiseres poderás sentir-me a construir o olhar com que olho este quadro....basta que libertes os sentidos e sintas as tintas a conjugar a transparência da forma. As tintas unem-se para criar...ligando, diferenciando... nada é opaco se sentirmos a espessura do mundo, os traços do mundo, as pessoas do mundo, os quadros do mundo, os olhos do mundo....não descures as sensações....há um segredo que no quadro se tece......há uma secreta intuição perceptiva por detrás da pele...

Hoje acordei com uma palavra na palma das mãos. Uma palavra que se estende no texto, uma espécie de abundância vinda do coração.....um sentimento em ligação...
Hoje acordei com a palavra sentimento nas minhas mãos...

Gisela Ramos Rosa, 03-10-2010