28 março, 2010

o cenário deste templo

From the album:
"Gestos" by Marcelo Novaes


Escolhi a tua voz para cenário deste templo
construído com palavras sugeridas por um fluxo
da memória

Que experiência esta a de te escutar
ao olhar um quadro de Klee

Só a tua voz ressoa no matiz irisado deste arco
imprevisto
onde uma gota de água coloriu a luz
desta página


Gisela Ramos Rosa, p. 27 Vasos Comunicantes (2006)



Não resisto a publicar o comentário de um amigo Argentino que resolveu traduzir o meu poema... adoro ler a poesia na língua espanhola, adoro olhá-la, decifrá-la... ganha outros contornos... muito obrigada Agustin!



Escogí tu voz para edificar este templo
construido con palabras sugeridas en un simple recuerdo...

Que experiencia la de escucharte
al mirar un cuadro de Klee.

Sólo tu voz vibra con el matiz irisado de este arco
imprevisto;
donde una gota de agua coloreó
la luz de esta página.


Gisela Ramos Rosa, p. 27 Vasos Comunicantes (2006)
Tradução de Agustin Talledo 28-03-2010

25 março, 2010

sobre o mundo que somos

Red-winged Blackbird in Sea of Yellow
© David Orias



se quiseres ser meu amigo não enxugues as mãos
abre os gestos e olha o centro dos mistérios
que de ti podem chegar a mim

sê pássaro peito e bússola
juntos cercaremos os montes e as flores
sem nos ausentarmos dessa imagem matriz

constroi um arco leve um eixo de pólen
que dará amplitude ao voo
então, sem que nada nos falte poderemos
falar sobre o mundo que somos

Gisela Ramos Rosa, 25-03-10


Não resisto a publicar o comentário de um amigo Argentino que resolveu traduzir o meu poema... adoro ler a poesia na língua espanhola, adoro olhá-la, decifrá-la, ganha outros contornos, muito obrigada Agustin!



si quieres ser mi amigo no cierres las manos
abre los gestos y revela la profundidad de los misterios
que de ti pueden llegar a mí...

sé pájaro, pecho y brújula
juntos surcaremos los montes y las flores
sin olvidarnos de esa imagen matriz

construiremos un arco leve y un eje de pólen
que dará amplitud a nuestro vuelo
entonces, sin que ya; nada nos falte podremos, hablar sobre el mundo que somos...



Gisela Ramos Rosa, 25-03-10
Tradução de Agustin Talledo 28-03-2010

24 março, 2010

Do templo

© Waldemar Wienchol

Felicidade é quando o que você pensa, o que você diz e o que você faz estão em harmonia

Mahatma Gandhi

20 março, 2010

com o meu nome e o teu

Sunny Morning
© Andre Arment


O que eu fiz de mais puro
como uma estrela do ar
como um pássaro de uma página
como uma flor de um fruto
como uma onda embriagada
que nasce de uma nuvem de cinza
ou de uma solitária nuvem
que voga na solidão do mundo
no esplendor branco de um Verão
como o grito mais límpido
nasce de um peito oprimido

Foi este livro contigo
que nasceu como nasceu
como nasce um poema
como uma estrela no ar
como uma estrela que respira
com o teu nome de Gisela
com o teu nome e o meu
com o meu nome e o teu


António Ramos Rosa, Vasos Comunicantes, Diálogo Poético com Gisela Ramos Rosa (p. 114, 2006)


* dedico esta edição ao meu tio António Ramos Rosa com quem tenho aprendido tudo o que sei sobre a palavra, o real e a relação com o mundo.

13 março, 2010

o corpo da palavra

outside the library of the University of Houston.


lembras-te como os nossos impulsos foram assimilando um mapa da língua quando nascemos? lembras-te que as palavras já existiam antes de nascermos e que a língua foi inventada antes de sabermos ler? a nossa mente foi incorporando formas esculpidas através das palavras, representações do espaço, avenidas de imagens em movimento que alguém construiu antes de nós, no silêncio do tempo....as palavras são expressão de uma fonte inesgotável que se vai propagando silenciosamente através de nós, com elas vamos tecendo o real e o corpo em que vivemos. Sabes que conhecer a língua implica saberes quem és para nela encontrares uma identidade? A língua pode ser uma rede insegura nas coisas mais ínfimas que designa, ela pode inventar o mundo dos indivíduos, o seu meio, ela é um veículo mental que incorpora.... mas é também com a língua que nos podemos transformar recompondo o mundo a palavra e o corpo.

Gisela Ramos Rosa, 13-03-2010


06 março, 2010

Como a criança que quer voltar ao chão*

© Cyrille Andres


Há uma distância segura entre mim e as primeiras luzes que vi ao nascer. A matéria foi ganhando forma à medida que o meu nome cresceu e passou pelos lugares, pelas estradas sucessivas que fui encontrando. Imaginei linhas onde sonhos decisivos uniram o sono e a vigília. Nas manhãs o leite e o fogo como a seiva que à tona desliza ao andar. À noite a primeira morte foi sempre desde o começo este brilho que em mim se exilou. Não sei como explicar-te tantas coisas pela primeira vez:

e se me perguntares como tenho os pulsos neste momento em que escrevo, dir-te-ei que as correntes libertaram todas as marcas do deserto. Sim, as correntes foram sementes da prisão de onde as minhas asas se soltaram. Quando os olhos e a sede desenhavam circunferências e apenas a saída era o voo que rompia a placenta como um golpe de uma estação a florir.... para encontrar um outro lugar ou afluente onde as minhas mãos se uniram, já com a palavra fruto, foi preciso que uma escrita antiga me lembrasse a chave e o segredo dessa longa travessia.

Desculpa se me inclinei “como a criança que quer voltar ao chão” (Daniel Faria, Poesia, p. 241)

Gisela Ramos Rosa, 06-03-2010