27 fevereiro, 2010

na minha língua há um sol

Dot at the end of day
© Matej Baco


Há um sol que se levanta e se põe

"No meu corpo como um eixo"* (Daniel Faria, Poesia)



tenho a língua suspensa nas margens da página

sinto-a como uma barca que embala

sílabas afectos densas utopias


procuro-a cerzida de mel e água e deslizo

ao desenhar janelas asas pontes e gaivotas



tenho a língua suspensa nas margens

de um sabor longínquo de saliva e pétalas

onde busco a palavra e o pão


há gestos na língua onde encontro um sol

arquitecto do sal do sangue da sombra

em que esbato sentenças opacas


tenho ainda uma rosa e um cravo na língua

com que teço os filamentos do verbo

e reclamo o mistério da fala


Gisela Ramos Rosa, 27-02-2010


20 fevereiro, 2010

quero ser Eva e Ave que esvoaçam

Avian Angel
© Sandy Powers



Porque certas palavras se repetem no
caminho


António Ramos Rosa, O Centro na Distância, p. 43



Sempre que sonho deponho as armas
e o silencioso ofício dos dias

ainda que alguém me detenha
quero ser Eva e Ave que esvoaçam
com as palavras onde encontro o segredo interdito
e desfaço as rotinas com o Sol e as asas
de todos os silêncios

Sempre que sonho atravesso uma porta
que não resiste e me oferece
a pulsação do corpo o lume e a língua
uma espécie de presença e espuma

ainda que o artefacto das pedras rugosas persista
como o anzol que escava presas antigas
acolho-as como flechas de fogo que me nascem
entre as mãos

sempre que sonho lavro os materiais secretos
do Amor deponho as armas o tempo e os dias


Gisela Ramos Rosa, 20-02-2010

13 fevereiro, 2010

como se Deus fosse a urgência do Amor


He Walks In The Dream
© Naomi Frost


De pedra em pedra
te peço
Não morras de sede
Ou de luz

Daniel Faria, Poesia, p. 422



não pronuncies a palavra esperança
está fora de ti é vã quando não sabemos
dos círculos que traçamos com o corpo

inventa um animal e dança com os passos
suspensos de todas as formas exactas respira
se necessário cai, cai sem medo
o erguer recomeça sereno

anela os afectos sempre que tocares
uma árvore uma flor a água
envolve-te neles profundamente
como se Deus fosse a urgência do Amor

tudo o que sabes é um anel que cresce
sem que possas antecipar a ave
que vai migrando nos teus olhos
haverá um momento iminente em que estarás
por detrás do olhar sabendo
que o corpo é uma encruzilhada do tempo
nele os sinais modelam um mapa legado
em cada acto presente

colhe o futuro nesse momento



Gisela Ramos Rosa, 13 de Fevereiro de 2010

07 fevereiro, 2010

Procuro o lento cimo da transformação*

© Przemyslaw Wielicki


Procuro o lento cimo da transformação

Daniel Faria, Poesia, p. 256



sabes, as casas podem ser do nosso tamanho
quando as olhamos a partir do branco
não sei se compreendes o quero dizer
quando enuncio a claridade

sabes, é como se fosse a partir desse eixo
que tudo se concebe, a perspectiva o desenho
a construção

agora ainda não, talvez amanhã te possa contar
como a luz pode integrar as mãos
e fundar nos olhos os efeitos da forma

e dizes-me, o branco o desenho a feição?
sim, esse instante é o intervalo entre tudo e nada
o momento Aberto* em que urge a criação


Gisela Ramos Rosa, 7-02-2010

06 fevereiro, 2010

Je suis fait de tout ce que j´ai vu*

Pondering the Future
© Colmar Wocke





Em Fevereiro de 2008 o professor José Machado Pais, perguntou-me se queria colaborar num artigo com ele sobre o cinema e os jovens. Devo referir que a minha enorme admiração por este grande senhor da sociologia que encontrei quando caminhava na pesquisa da minha tese de mestrado, não se prende apenas com as suas qualidades académicas mas com a sua postura humana perante a Vida e as Pessoas, na forma como se relaciona com estas e como as conta no quotidiano das relações sociais, fundadas em representações, com a minúcia e elevação serenas de um sábio, mostrando-nos Vidas Autênticas, nos seus artigos, nas suas conferências, nos seus livros, na sua fala. Aceitei este convite sem hesitar sabendo que a responsabilidade era enorme, mas sabendo também que teria a possibilidade de (re)velar e expressar em conjunto, a quatro mãos com todo o prazer das mãos (escrita) e da alma. Assim nasceu um texto com o título De uma Estética do Consumo a uma Estética do Crime que foi publicado na Colectânea A Juventude vai ao Cinema (editora Autêntica, 2009), (ver aqui) - Brasil - em conjunto com outros tantos textos de outros investigadores do mundo, sobre o mesmo tema. Esta publicação tem organização da professora Inês Assunção de Castro Teixeira e dos professores José de Souza Miguel Lopes e Juarez Dayrell (do Observatório Jovem - Brasil).


Deixo-vos um pequeno excerto do artigo:

"Tal como as palavras às quais se refere José Machado Pais (2004), as imagens “tribalizam” as comunidades, neste caso os jovens afrodescendentes, criando simulacros identitários. “Devem as ciências sociais fazer orelha mouca dessas vozes que apregoam etiquetas em tudo o que é realidade?” (p.12)."


PARTE I:
CULTURAS JUVENIS
“Asesinos adolescentes, asesinados”: Los Olvidados
Carles Feixa
Maria Cheia de Graça: um corpo “mula”, um corpo prenhe
Glória Diógenes
Não sou mais assim: decolagem, phylia e
hospitalidade em um Albergue Espanhol
Carlos André Teixeira Gomes, Inês Assunção de Castro Teixeira
e Karla de Pádua.
Zona J: de uma estética do consumo a uma estética do crime
Gisela Ramos Rosa, em colaboração com José Machado Pais
Proibido Proibir: jovens universitários entre o campus e a cidade
Paulo Carrano

Por um tempo da delicadeza
Paulo Henrique de Queiroz Nogueira
Elefante e o universo juvenil na obra de Gus Van Sant
Geraldo Leão.

PARTE II
REBELDES JUVENTUDES
Antes da Revolução: existência e
futuro individual num momento efêmero
José de Sousa Miguel Lopes
Edukators: novas formas de visibilidade da juventude contemporânea
Juarez Tarcísio Dayrell e Rodrigo Ednilson .
Na motocicleta, sem perder a ternura
Antonio Julio de Menezes Neto .
Batismo de Sangue e o que é que eu tenho a ver com isso, hoje?
Nilton Bueno Fischer .
Juventude: a rebeldia em cena ou a utopia do poder
Sandra Pereira Tosta e Thiago Pereira



Sinopse da editora sobre Colectânea:

"Nesta coletânea estão presentes as mais diversas formas de ser, de estar e de se viver a juventude, juventudes muitas, sob o olhar de vários cineastas, de diferentes países e épocas. A obra contém vários olhares e sensibilidades, várias questões e reflexões de grandes diretores do cinema mundial, que buscaram observar, escutar, sentir, pensar, dialogar com as juventudes, tentando compreendê-la, dar-lhes visibilidade e registrá-la com suas câmeras. E assim como os diretores das obras cinematográficas escolhidas para comporem a coletânea, os autores/as dos textos, nossos convidados/as, pesquisadores do campo da educação e/ou da juventude, oferecem-nos diferentes planos e prismas, idéias e palavras, perspectivas teórico-analíticas e narrativas em seus trabalhos sobre os filmes, compondo, a partir do elenco dos filmes escolhidos, um caleidoscópio de figurações, imagens, luzes e sombras, no qual a juventude é o centro. Partimos dos princípios gerais da Coleção, destinada prioritariamente a educadores/as, entendendo o cinema como arte e pensando largo sobre suas possibilidades na educação e na escola. Nesse sentido, propomos que nelas esteja presente, não apenas como passatempo ou ocupação de tempo, não ou somente como uma linguagem e não somente como recurso pedagógico e instrumentalização didática, mas como uma arte que nos faculta o encontro com a alteridade."



* o título desta edição é da autoria de Matisse

04 fevereiro, 2010

Como se a sede me ensinasse a caminhar sobre a palavra *


Trago os instrumentos do fogo
ponho-os na boca
ponho-os no coração

Trago os instrumentos da respiração
- Uma montanha, uma árvore que lhe dá abrigo -
E suspendo-os nos ramos como pinhas que dão sombra
Um lugar fresco para os deportados de Sião nas margens

Trouxe também os instrumentos dos mineiros
Uma luz na cabeça voltada para o pensamento
Um olhar profundo
O modo prisioneiro de virem livremente para fora

E trago todos os instrumentos na circulação do sangue e na ocupação
(permanente

Das mãos
Para o instrumento difícil
do silêncio


Daniel Faria, Poesia




O título desta edição é um verso de Daniel Faria, extraído de Poesia, p. 324