30 janeiro, 2010

quando o caminho é um rebento que agita e leva

© Fernand Hick


A Árvore foi a forma de te ver
e desci para abrir a casa.

Daniel Faria, Se fores pelo centro de ti mesmo, p. 167



Quando o caminho
é um grão que desenha o movimento
e com os seus passos lentos não apela o abismo
ou a vertigem dos que persistem na roda da matéria

quando o caminho é um rio que se prolonga
restituindo um novo olhar sobre a Casa
e persiste escrevendo ondulações sobre o espaço
nos ramos das árvores nas janelas nos muros
em redor do coração* de quem sente

quando o caminho é um rebento que agita e leva
a raiz para um lugar sem fronteiras enunciadas

o Ser é a Casa um espaço
que flutua
passagem Paixão ou Alma onde as pedras
se elevam como escada
para a herança
das árvores que queremos abraçar



Gisela Ramos Rosa, 30 de Janeiro de 2010

23 janeiro, 2010

com as palavras acaricio o Sol

Sunrays
© Gary Pope



com as palavras acaricio o Sol
e os gestos nascem
como os da corola de um girassol



Gisela Ramos Rosa, Vasos Comunicantes, Diálogo poético com António Ramos Rosa, p. 113

20 janeiro, 2010

O sin materia tal vez,*



egrets
© Shlomi Nissim


Aire: nada, casi nada

O con un ser muy secreto,

O sin materia tal vez,

Nada, casi nada: cielo (…)


Aire, Jorge Guillén, p. 106


17 janeiro, 2010

a palavra, a fábula, o mundo

Escrevo para entrever o que seria o mundo
liberto de si mesmo E sem imaginar
pouso no limite entre a luz e a sombra
para me oferecer à nudez de um começo

Há palavras que esperam na sombra contra o muro
para serem a felicidade de uma folha aberta
sem mais sentido que o perpassar da brisa
mas que abrem o mundo e de doçura tremem

Não é preciso polir a madeira das palavras
ou talhá-las como se fossem seixos
Há um lugar para elas no branco e não numa alfombra de
ouro
e quanto mais frágeis mais frescura exalam
porque elas são a fábula do mundo quando a água o embala


António Ramos Rosa, As palavras, p. 148

16 janeiro, 2010

As raízes não falam. Não estão atrás. Nem no fundo. /As raízes vão à frente. Puxam-nos para a frente* ...

Life
© Christopher Scott


Põe quem és no mínimo que fazes

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.

Sê tudo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.

Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

Fernando Pessoa, Odes de Ricardo Reis


* O título desta edição são dois versos de um poema de António Ramos Rosa com o título As Raízes.

15 janeiro, 2010

tudo era antes de tudo



misty lake
© hariadi lius

09 janeiro, 2010

encontros



Encontrei esta composição de imagens na intimidade do meu tio António Ramos Rosa. Aqui as páginas cruzam resmas de papel, palavras, rostos e mensagens.
Ressonâncias poéticas numa espiral do encontro...

Gisela Ramos Rosa, Dezembro de 2009.

07 janeiro, 2010

a visão é o tacto do espírito*

António Ramos Rosa olhando um albúm de pintura de Boticelli, 19 de Dezembro de 2009, o poeta quis mostrar-me o realismo dos rostos deste pintor.


* o título é da autoria de Fernando Pessoa

02 janeiro, 2010

qual é a chama de todas as fontes?



Desenho de António Ramos Rosa, Fevereiro de 2009 - caneta tombo em folha de papel A4



Qual é a chama de todas as fontes?
qual é o pássaro de todos os cantos
ou o pássaro que voa no vento?
diz-me minha filha se puderes responder
e senão, senão inventa a resposta
ou muda a pergunta

Chamo Sol a essa chama
reveladora da minha sede
vejo-a nos seus olhos incandescente
e sinto como um pássaro
a leve saciedade de um voo límpido

Se perguntasse à tua resposta
o que ela não disse
no que disse
perguntar-te-ía
qual é a sombra da tua sede
que há tanto em ti como em mim?
Será um olhar?
Ou uns lábios onde adormece
a mais fresca solidão
de um nome que se calou
no silêncio de uma verdade?


Poema de António Ramos Rosa (1ª e útima estrofes) e de Gisela Ramos Rosa (segunda estrofe)
do livro Vasos Comunicantes, Diálogo poético, p. 13 , 2006