31 dezembro, 2009

um primeiro olhar - "tudo o que ele queria era viver e voar..."*



the Wall
© holger droste



encontro nos muros um impulso de asa
quando neles imprimo um primeiro olhar


Gisela Ramos Rosa



* Parte do título desta edição é da autoria de Iracema Caingang contista de contos indígenas (ver aqui)

a autora, no comentário a esta edição escreveu o seguinte:
"...parece o passarinho do meu conto, tudo o que ele queria era viver e voar..."

24 dezembro, 2009

e então nasce livremente











Pois nascer é ter de atravessar um invólucro que contém o sujeito dentro, no qual não pode permanecer, não por risco da sua vida mas do seu ser. É ter de abandonar um lugar onde o ser se encontra dobrado sobre si próprio, imerso na escuridão...

...Assim brota a vida da consciência, a que se chamou por vezes espírito, consciência vivente.


María Zambrano, O Sonho Criador, pp. 110 e 121






Reborn
© Ben Goossens

Sempre que nasceres pergunta

vive o espaço que se prolonga em ti

para além de ti vai caminha lentamente

nunca será em vão a indagação

sobre a linguagem dos homens e das mulheres

as construções que a teus olhos se deparam

acredita nas imagens primeiras

os sentidos serão a chave reveladora o mapa

intui uma melodia ela levar-te-á

além da porta


Sempre que nasceres canta

eleva um cântico abre uma via um umbral

propaga-te como um espelho de ti mesmo

onde possas incluir os Outros

procura sempre um lugar dentro de ti

e repousa sonha o mais possível

nunca recues sem saber se é oportuno Seres

naquilo que em cada instante se desfaz

para se refazer no que serás em movimento

como uma dança, um bailado


e então nasce livremente

e sempre que nasceres pergunta

se és tu e depois caminha


Gisela Ramos Rosa, 24-12-2009


20 dezembro, 2009

un parfum qui fait rever*



António Ramos Rosa lendo um poema de Baudelaire, 19-12-2009. Perdoem-me a qualidade da imagem, a luz não era muita. Imagem de Gisela Ramos Rosa




"É necessário que um dia todos os homens vejam que o desejo de chegar mais longe, a atenção à crítica, a calma ante o que fere, nada têm com a força e a fraqueza: são qualidades da alma."

Agostinho da Silva, in Citações e Pensamentos




* O título é um verso de Baudelaire, do poema dito.

18 dezembro, 2009

todos nós somos hóspedes da vida*



"Todos nós somos hóspedes da vida. Não há nenhum ser humano que saiba o significado da sua criação, excepto ao nível mais primitivo e biológico. Não há nenhum homem nem nenhuma mulher que saiba qual o objectivo (se é que existe...), qual o significado da existência. Porque é que há algo em vez de nada? Porque é que eu existo? Somos hóspedes deste pequeno planeta, de uma urdidura infinitamente complexa, quiçá fortuita, de processos e mutações evolutivas que, em inúmeros estádios, poderia ter seguido um outro curso ou testemunhado a sua extinção. Acabámos, aliás, por nos tornar hóspedes vândalos, produzindo lixo, explorando e destruindo outras espécies e recursos. Estamos a transformar rapidamente este ambiente extraordinariamente belo e intrincadamente perfeito, e inclusive o espaço sideral, numa lixeira venenosa. Há caixotes de lixo na Lua. Por mais inspirado que seja o movimento ecológico....

camp of afghans
© ali.noohi

Todavia, este vândalo não deixa de ser um hóspede numa casa do ser que não construiu e cujo desígnio e arquitectura lhe escapam.

Agora temos de aprender a ser hóspedes uns dos outros naquilo que resta desta terra sobrepovoada e degradada. As nossas guerras, as nossas limpezas étnicas, os arsenais, de massacre que prosperam mesmo nos estados mais pobres, são territoriais. As ideologias e os ódios mútuos a que dão origem são territórios de mente. Desde sempre os homens têm-se atacado uns aos outros por causa de um pedaço de terra, sob diferentes trapos coloridos empunhados como bandeiras, a propósito de ténues diferenças na língua e no dialecto.
A História tem assistido a um investimento interminável de ódios recíprocos por motivos bastante mesquinhos e irracionais. Por uma qualquer inspiração lunática, certas comunidades, por exemplo nos Balcãs ou em África, são capazes de explodir em
apartheid e genocídio depois de terem vivido juntas durante séculos ou décadas. As árvores têm raízes, os seres humanos têm pernas. Com as quais podem atravessar o arame farpado de fronteiras idiotas, com as quais podem visitar e viver como hóspedes entre o resto da humanidade. Existe uma simbologia fundamental nas lendas que abundam na Bíblia, mas também nas mitologias gregas ou outras, do estranho que ao sol-posto bate ao portão após a sua viagem. Trata-se frequentemente do toque de um deus ou de um emissário divino que põe à prova a nossa capacidade de acolhimento. Quero acreditar que esses visitantes são os verdadeiros seres humanos em que devemos tentar tornar-nos se queremos sobreviver..."


George Steiner, Errata: revisões de uma vida, pp. 71-72

* expressão de George Steiner

13 dezembro, 2009

uma caligrafia da alma



texto de mi librito "Si Sabes Ver "



agarra una hoja de papel
o una tela o una plancha de metal
en este momento
empieza tu aventura
empieza un dialogo
hay preguntas
hay respuestas
vibramos
con una sola mirada
vemos los detalles
pero tambien el conjunto
todo el espacio
todo un universo
en sus mìnimos detalles
el ojo el espìritu la mano
todo se concentra
en una intimidad creadora
y sobre este papel
o plancha o tela
comienza nuestra aventura

una suerte de destino
donde hay que ponerlo todo
todo lo que sientes
todo lo que puedes
todo lo que sabes
y trata de tamizarlo

a veces este acto creador
es como un trancazo
a veces es suave
como una caricia

A imagem e o título são igualmente de Myra Landau - ver aqui
esta aventura esta uniòn
la sentiràs cada vez
que comiences a trabajar
quiero decir
toda la vida

quiero que entiendas
que tambien al trabajar
el papel la tela o la plancha
estàs trabajando sobre ti.

dibujandote
grabando al mismo tiempo
dentro de ti
llenàndote de color

-sobretodo divertiendote
en plena libertad-

y asi ninguna lìnea o puntos
o circulos o manchas de color
que estàs haciendo
ninguna de estas cosas
se van a perder

salen de dentro de ti
pero regresan y te enriquecen

nuestro trabajo
es magia pura
renovaciòn sin limites
constante meditaciòn
y trance constante

esto es muy importante
este momento
este instante
o esta eternidad

la obra plàstica DEBE ser
un trabajo un "algo"
que sale de adentro de uno
aprender a ver dentro de uno mismo
y transmitir este sentimento

Myra Landau (ver aqui)




* Conheci Myra Landau através da Luísa Vilaça, autora do blogue Um Olhar de Perto e do João Menéres autor do blogue Grifo Planante. Agradeço-lhes terem-me dado a conhecer esta preciosa Senhora das Artes Plásticas. Myra é alguém cuja capacidade criativa se propaga à velocidade da luz, não só na tela como nas palavras, toda a sua alma é expressão que encanta e eu estou encantada com ela. Hoje a minha edição mostra o modo como a criadora Myra Landau encara a arte, pegando nas coisas mais simples para edificar articulando a palavra, as formas, as cores, o que de mais belo há na comunicação - A expressão Artística como uma caligrafia da alma.

Obrigada Myra, por te ter conhecido! A ti, a teu irmão Yosif Landau e a tua filha Dominique Landau. Estou fascinada contigo e com a tua família!!

Nota Biográfica da autora Myra Landau:

latinoamericana. Nata in Romania, ma cresciuta da quando aveva 12 anni tra Brasile e Messico, Myra Landau ha adottato le colline romane come dimora, dopo essere arrivata in Italia nel 1994. «Non ho patria, e anche la parola patria non mi piace. Ho vissuto in molti paesi, ma sono una persona senza limiti di frontiere o bandiere. Dove ho gli amici, sono a casa e l'Italia è per me cosi». Racconta in queste poche parole la sua intensa vita, iniziata dalla fuga dall’Europa sconvolta dalla guerra e dai regimi totalitari, approdata sulla riva della libertà espressiva del Brasile degli anni ’50. La Landau è poi maturata come artista in Messico, dove ha lavorato ed insegnato belle arti per decenni. Vade retro è il romanzo intenso della sua vita, scritto in quattro lingue. (Andrea Palladino)

08 dezembro, 2009

todo o ser vivo ou todo o som contém uma cifra do universo *

Rice Paddy in Myanmar
© Alessandro Della Casa

João Medina dá-nos a conhecer no Jornal de Letras o mais recente livro de George Steiner, George Steiner at the New Yorker(2009), uma colectânea de 30 anos de crónicas literárias. Encantei-me quando a dada altura Medina remete-nos para: "o longo texto crítico que Steiner dedica a Jorge Luís Borges (p.162-175), um espírito - e um caso - que não podia deixar de atrair e fascinar Steiner, até pelas suas comuns preocupações cabalistas sabe-se que o argentino teve um aprendizado de cabala, quando residia em Genebra, o que lhe permitiu imaginar aquela prodigiosa metáfora do Aleph, localizado algures, numa escadaria na Rua Garay em Buenos Aires, a partir da ideia de que todo o ser vivo ou todo o som contém uma cifra do universo como um todo (...) e cita Steiner:

"O Universo é um grande Livro, e cada fenómeno natural e mental carrega consigo significado. O mundo é um imenso alfabecto. A realidade física, os factos da história, tudo o que os homens tenham criado, são como sílabas duma mensagem constante. Estamos rodeados duma rede ilimitada de significado, cuja verdadeira fibra carrega um pulsar de ser e conduz, por fim, ao que Borges, na sua enigmática história, chama Aleph (...). É o espaço dos espaços, a esfera cabalística cujo centro está em toda a parte e a sua circunferência em parte nenhuma; é a roda da visão de Ezequiel mas também o tranquilo passarinho do misticismo sufi, no qual de alguma maneira se contêm todos os pássaros."

Refere, ainda, João Medina, "Steiner sublinha a ideia borgiana de que o universo é uma Biblioteca, que contém todos os livros e todas as línguas"...


George Steiner: um crítico prodigioso, crónica de João Medina em Jornal de Letras, 2-15 Dezembro de 2009, p. 43

*O título é da autoria de João Medina

06 dezembro, 2009

quando prometemos regressar ao nosso lugar unitivo

© Mariusz Jankowski


Luís Filipe Pereira contactou-me num dia de Abril de 2008, depois de várias tentativas para marcarmos uma visita ao meu tio António. LFP havia elaborado uma tese de mestrado sobre a obra do poeta e queria muito entregar-lhe um exemplar. Nesses dias, tentava sarar a perda de meu pai e fui adiando o encontro. Num de meus e-mails contei-lhe que passava muito tempo no meu sótão cultivando uma espécie de lugar necessário, onde o meu interior ía também modelando o exterior para poder re-habitar um outro lugar...

Muito grata fiquei ao autor quando em seu blogue - Intertextualidades - "Estou vivo e escrevo sol", foi possível ler o seguinte:


Sótão de Salutar Solidão (fragmento que dedico a Gisela Ramos Rosa)


"E todos os espaços das nossas solidões passadas, os espaços em que sofremos a solidão, desfrutamos a solidão, desejamos a solidão, comprometemos a solidão, são indeléveis em nós. E é precisamente o ser que não deseja apagá-los. Sabe por instinto que esses espaços da sua solidão são constitutivos. Mesmo quando eles estão para sempre riscados do presente, doravante estranhos a todas as promessas do futuro, mesmo quando não se tem mais o sótão, mesmo quando se perdeu a mansarda, ficará para sempre o facto de que se amou um sótão, de que se viveu numa mansarda. A eles voltamos nos sonhos nocturnos. Esses redutos têm valor de concha." Bachelard, Poética so Espaço..........................................................................

sótãos. estranhos e mágicos recessos de epifanias. alpendres invertidos soerguendo-se na surda música da respiração. um álbum esquecido torna-se vivo. o pó que esvoaça das gavetas subterrâneas late em júbililo quando o percorrem os dedos aracnídeos e nele riscam revoadas de arabescos. linhas. mapas do corpo. espumas de conchas. sótão. ermo coração da casa arfando nos gestos que escutam um texto desconhecido. sótãos para experimentar o infinito num mínimo acto de melancolia. sótãos de aventura quando a casa e o mundo adormecem como um barco à deriva numa consentida espera das vagas ciciando o eu do eu do eu na lucidez de um espaço umbilical que amanhece nos orifícios da noite. da pele. da tela em branco. sótãos-cais. sotãos-centros em que realmente nasço na luz da comunicação para além da comunicação humana. comunico com as traves. com os ninhos sonhados. com as conchas folheadas no sortilégio de um poema a escrever-se sobre os degraus dos meus joelhos. sótãos nos confins do enigma onde ecoam as notas da infância de um piano ausente-presente. tocando em surdina notas de serenidade colhidas nas linhas infinitesimais de um lugar mínimo tornando-se mais lugar do que todos os lugares. sótãos-mundos. sótãos que são exímios sítios da lonjura de mim. atraídos por um traço maior. um verso mais iluminado do que o frio lóbulo de uma lâmpada. sótãos-olhos rolando para a memória do desconhecido. para os olhos das conchas entrabertas. para os arquipélagos da intimidade que são o lugar imóvel do vaivém da tristeza. mas onde a seiva do ser alastrando sótão adentro permanece em nós aprumando-nos as asas. as imagens não decepadas que são promessas de regresso ao eu do eu do eu. que retorna ao soalho flutuante como casco nu embalando a partitura das muitas vozes da nossa voz saboreando o medo no abrigo silente dos sótãos-fronteiras. dos sótãos-passagens. conchas labiando dentro de conchas. corais que proliferam no único lugar de solidão onde é impossível estarmos sós. sótãos-respiração. sótãos que nos respiram quando fechamos os olhos e prometemos regressar ao nosso lugar unitivo........................................luís filipe pereira, Abril de 2008

*Continuo a agradecer-lhe caro Luís Filipe! O espanto que me causou pois não nos conhecíamos e nem sequer conhece o meu sótão. Muito grata pelo texto, pela sua capacidade criativa/imaginativa.

05 dezembro, 2009

o livro que espalma a flor nas suas páginas transforma-a em borboleta

Flower Power
© johnpainter



Um "recipiente" minúsculo que nos dá um espelho
Aquele astro dia, aquela nuvem sombria juntos vão
É de perguntar - como acontece teres tal limpidez?
É que de onde venho são oriundas: - Águas vivas do
Universo.


Zhu Xi (1130-1200)
in Uma Antologia da Poesia Chinesa do Shijuing a Lu Xun
- segundo milénio antes da era comum XX (por Gil de Carvalho)


* O título deste post é da autoria de Ramón Gómez de la Serna, Gregerias, uma selecção
(selecção e tradução de Jorge Silva Melo)




Dedico esta edição a Gisele Freire, fotógrafa brasileira autora do blogue Vastas emoções e pensamentos imperfeitos. Obrigada Gisele! ver aqui

03 dezembro, 2009

versões do mundo

Sun eclipse
© iyadrally


Se tiveres de escolher um reino
escolhe o relento
a noite tem a brancura do alabastro
ou mais extraordinário ainda

Ao que vem depois de ti
cede o instante
sem pronunciar o seu nome

José Tolentino Mendonça, Versões do mundo, in O viajante sem sono, p. 49


* o título deste post corresponde ao título do poema

01 dezembro, 2009

uma voz amanhecia com a espessura da água



Livruras, fotografia de José Manuel Vilhena, em Ruinologias


Tenho a forma de uma pena nos dedos
percorro estas palavras e recordo
o mundo que coloquei neste livro
os pássaros esvoaçavam num cântico antigo
trazendo uma escrita originária
uma voz amanhecia com a espessura da água
das ondas que se elevavam no horizonte da matéria
como um sopro revelando a pedra

Gisela Ramos Rosa