31 outubro, 2009

Sim. Agora posso explicar-te o mistério das águas.




Prometo-te a palma da minha mão para a escrita.
Cerca-a de magnólias, cerca-me. Podes fechar a escrita
No interior da mão ou na boca dos livros
Podes esquecê-la ou libertá-la dos mil botões
Que ela sopra no interior dos homens.
Podes mandá-la àqueles que mais amas
Ou como pétalas e mensagens nas anilhas das aves
Aos teus próprios inimigos.
Podes desarmá-la para propagares as chamas.
Dou-te, como desde sempre, o poder
De escreveres na pele da minha mão
As promessas que te fiz. Sabes que existo
E que vou repetir-te todas as coisas outra vez.

As estações, por exemplo - não sou o único que o digo -,
Não rodam à maneira dos carrosséis no largo. No Outono
A magnólia é pensativa como o homem
Que te olha por detrás da janela onde te escrevo.
No inverno os vidros vão embaciando - aproxima
A tua mão da paisagem que resta
Como se fora o lado do verbo que encarnou. Repara
No banco de pedra - ele está
Sobre ti.

Reading
© Ardian Zuehry

Tu és a criança sentada
Que olha o céu. Há um tesouro
No céu - um coração novo. Reconheces
A magnólia estelar? O interstício solar
Da pupila celeste? Ela está sobre ti
E contempla - é verdade que é pelas lágrimas
Que começam as visões.
Sim. Agora posso explicar-te o mistério das águas.
Debruça-te como ele quando escreveu no chão
Irás entender - elas jorram das palavras.


Daniel Faria, em Poesia, pp.334,335

24 outubro, 2009

A transformação acontece por dentro







Releio “ A Profecia Celestina” um livro de James Redfield que já lera, há uma década atrás, com um prisma contextualizado nessa fase da minha vida. Encontro-me de novo com o texto deste livro encarando-o, agora, de uma forma renovada pelo meu olhar actual, através das lentes que o meu percurso de vida me tem facultado.

Uma das questões que me acompanha desde que iniciei o processo de iniciação à consciência (de mim e do que me rodeia) é o de saber o porquê de os seres humanos necessitarem, muitas vezes de forma ávida, de preponderância nas relações que estabelecem entre si. E quando falo de “preponderância” refiro-me àquilo que no processo social seriam as fases extremas – a Competição descontrolada e o Conflito que leva à eliminação do Outro.






Inside the water tank of the ancient Portuguese fortress town Mazagan, Morocco.
Raincatcher
© Mandy Schoch

A teoria deste processo estudado nas Ciências Sociais, diz-nos haver três estados de relação em sociedade a Cooperação, a Competição e o Conflito. O que levará determinadas sociedades, grupos e indivíduos a seguir tendencialmente os dois últimos estados deste crescendo? (Cheguei mesmo a questionar ao Prof. Jorge Vala sobre esta questão, num curso sobre Etnicidade, migrações e Racismo no ICS da Universidade de Lisboa).

Como sabemos a forma como a sociedade está organizada poderá responder a essa questão. A Estrutura determina, muitas vezes sem termos consciência , o modo como os indivíduos pensam. As relações de troca, a economia, condiciona as relações sociais e a própria Estrutura. Mas a Educação também nos dá um mundo já concebido. Cabe-nos a nós, a par e passo, conhecer o que nos rodeia e o mundo que nos é dado a perceber, associando instrumentos de olhar e ver o mundo que só nós próprios com a grelha que construímos podemos utilizar, articulando a teoria e a prática.

Bom, recuando à questão que sempre me preocupou e que de certa modo me levou a estudar as Relações Internacionais e depois as Interculturais chegando mesmo às relações interpessoais - a da preponderância que leva muitas vezes ao aniquilamento psicológico do Outro. De acordo com as Ciências Sociais, parece que houve sempre esta tendência nas sociedades, que pode, ou não ser exarcebada de acordo com políticas e estratégias de controlo – a nível macro - e nos indivíduos de acordo com a sua própria educação e índole – a nível micro.

O livro A Profecia Celestina de James Redfield, cabe neste texto porque sugere o desvendar de um manuscrito, encontrado no Perú, que pode ser entendido como a descoberta que cada um poderá fazer da vida que tem e da forma como pode alterar e transformar a relação com os outros. Deixo aqui algumas passagens que me tocaram e que revelam um prisma sobre as relações entre indivíduos:

“ O meu campo de estudo é o conflito, ver por que razão os seres humanos se tratam uns aos outros com tanta violência. Sempre soubemos que essa violência tem origem no impulso que existe nos homens e que os leva a quererem controlar e dominar os outros, mas só há pouco começámos a estudar esse fenómeno do ponto de vista da consciência individual, ou seja a partir de dentro. Pusémos a pergunta: o que se passa no íntimo de um ser humano que o leva a querer controlar outro? E descobrimos que, quando um indivíduo se dirige a outro e entabula com ele uma conversa …, uma de duas coisas pode resultar desse encontro: o indivíduo sai desse encontro forte ou fraco, consoante o que aconteceu em termos de interacção. (…) (Redfield, p. 93)

É por isso (…) que nós, os seres humanos parecemos estar sempre a assumir uma atitude manipuladora. Independentemente dos pormenores concretos de cada situação ou do assunto em causa, preparamo-nos sempre para dizer o que for preciso, para fazer prevalecer o nosso ponto de vista. Cada um de nós procura uma maneira de controlar e de dominar a conversa. Se o conseguirmos, se o nosso ponto de vista prevalecer, nesse caso, em vez de nos sentirmos fracos, receberemos um reforço psicológico.” (Redfield, p. 93)

Mais à frente, Redfield dá-nos uma situação concreta:
“ - Meu Deus! - disse eu. - O tipo deve ser mesmo diabólico.
Não propriamente – contrapôs ele. - Provavelmente, só tem uma noção muito relativa do que faz. Acha-se com o direito de controlar as situações e não há dúvida de que há muito que aprendeu a fazê-lo, seguindo uma determinada estratégia. Começa por se fazer muito seu amigo; em seguida, descobre algo de errado que você tenha feito, no seu caso, por exemplo, que você corria perigo. Na realidade, consegue muito subtilmente sabotar a confiança que você tem no caminho que está a seguir, até você acabar por se identificar com ele. Mal isso acontece, está nas mãos dele....
Esta é apenas uma das estratégias que as pessoas utilizam para tirar energia umas às outras....
A maior parte das pessoas ainda não tem consciência desta realidade. Só sabemos que nos sentimos fracos e que nos sentimos melhor quando controlamos os outros. O que não percebemos é o que o facto de nos sentirmos melhor custa aos outros, cuja energia roubamos. A maior parte das pessoas passa a vida a procurar obter constantemente a energia das outras...” (Redfield, p. 113)

Por outras palavras, nós, os seres humanos, procuramos exceder os outros em astúcia e controlá-los, não porque esteja em jogo uma meta tangível existente no mundo exterior, algo de concreto que queiramos atingir, mas porque precisamos do bem-estar psicológico que daí resulta. É por esta razão que existem tantos conflitos irracionais no mundo, quer a nível individual, quer ao nível das nações.”
(A Profecia Celestina, James Redfield, p. 93)

Parece-me interessante a perspectiva de Redfield quanto ao poder assente na energia dos indivíduos e à forma como essa energia pode ser utilizada. Estou de acordo com alguns autores que li no âmbito das Ciências Sociais, quando referem que apenas a Educação, a aprendizagem e consciência humanas (do Eu, do Outro e do Mundo) podem atenuar e mesmo contrariar este processo tendencial, que acontece nas relações sociais enquanto relações de "poder" extremado, alterando a mentalidade humana....e aí talvez possamos entender melhor esta passagem do mesmo livro....

“Compreendi que tudo fazia, de certo modo, parte de mim. Estar sentado no cume da montanha a olhar as paisagens que dali partiam em todas as direcções fez-me sentir que o que sempre tomara como o meu corpo físico não era senão a cabeça de um corpo muito mais vasto, feito de tudo o resto que o meu olhar conseguia abarcar. Experimentei o universo inteiro a observar-se através dos meus olhos.” (Redfield, p. 125)

Gisela Ramos Rosa, Outubro de 2009



Excertos retirado de:
A Profecia Celestina
, James Redfield, pp. 93, 113, 125

* James Redfield é licenciado em sociologia e mestre em Assistência Social. Trabalhou muitos anos com adolescentes vítimas de maus tratos, é mundialmente conhecido pelos seus escritos sobre a vida espiritual e as relações entre a experiência e a dimensão sagrada do universo.

23 outubro, 2009

Within










































Within
© Laurent Auxietre

em http://laurentauxietre.wordpress.com/

18 outubro, 2009

percursos da luz


percorso della luce

© Sven Fennema


Transformar a linguagem é transformar a sensibilidade.

Jacques Ancet, sobre Vicente Aleixandre

17 outubro, 2009

A tua alma é o mundo inteiro*








Três desenhos de António Ramos Rosa, o primeiro e o último datados de 10-10-2009 e o intermédio de Fevereiro de 2009.

Hoje o meu tio António Ramos Rosa completa 85 anos. Há uma semana atrás, quando o visitei disse-me que gostava de fazer mais uma exposição dos seus desenhos. Retive o seu desejo e vou procurar a melhor maneira de o concretizar. Entretanto edito aqui alguns dos desenhos que ele me deu....todos os seus desenhos me provocam...todos os seus traços me fascinam...neles está contida a destreza pura das mãos do poeta que ele é, a fluência dos seus traços, cuja mão é já mental, a presença tendencial de um olho que fica talvez de um rosto antigo, de um rosto presente, de alguém, de ninguém, de todos nós...



Fica aqui um poema que lhe dediquei em 2005:



Tu és a flor de um traço
nas linhas de um olhar em que descubro
a paz com palavras sucessivas
a chuva embriagada de harmonia
o desejo de um oblíquo feitiço
na diagonal da cor dos meus sentidos

Gisela Rosa, Vasos Comunicantes, Diálogo poético com António Ramos Rosa, p. 95




* título extraído de
Upanishades

14 outubro, 2009



Secret Admirer
© johnpainter

Hoy lucho a solas con una palabra. La que me pertenece, a la que pertenezco: ?cara o cruz, águila o sol?


Octávio Paz, ? Águila o Sol ? (1940-1950)

11 outubro, 2009

Como nasci poeta...


Video da autoria de Gisela Rosa



Ontem, 10-10-2009, iria encontrar-me com Vivian Steinberg uma amiga brasileira que está em Portugal fazendo doutoramento sobre Fiama Hasse Pais Brandão. Levá-la a conhecer os meus tios António e Agripina, seria por certo uma delícia poética para ela, assim fiz. O poeta recebeu-nos lendo um poema de Manuel da Fonseca do livro Líricas Portuguesas - Segundo dos poemas da infância - Eu e Vivian escutámos atentamente o poeta, emocionadas....peço desculpa pela qualidade da imagem, a luz interior não ajudou muito.
Emocionem-se também....

07 outubro, 2009

os liames da fala


EXIT
© Patricia Sweeney


Todos os nomes todos os dias
as coisas dispostas
num tabuleiro de paixões que construímos
com a sublimação da pele e do sentido
combinando os liames da fala
às vezes muda às vezes surda
e os braços articulando emoções

com as mãos tocando
tédios, paixões
dias, anos
Vida


Gisela Ramos Rosa

05 outubro, 2009

por vezes invento um Sol

flowers still have power
© Codrin Lupei


Já perguntei ao Sol quantos caminhos
se percorrem para atingir a claridade

Já perguntei ao Sol se o horizonte
é um pássaro leve e nos transporta

Já perguntei ao sol se a vida é
uma floração secreta de sonhos

Já perguntei ao sol se as palavras
são a secreta luz do seu mistério


Por vezes caminho em direcção ao horizonte, voando como um pássaro leve, e a vida ganha o sabor de uma floração secreta de sonhos e invento um Sol que me ceda a secreta luz do seu mistério.


Gisela Ramos Rosa (2009)

03 outubro, 2009

a água, um possível espaço de reflexos*


Reflection
© Shazeen Samad


Nos sonhos (escreve Coleridge) as imagens figuram as impressões que pensamos que causam.


Jorge Luís Borges, in O Fazedor, Ragnarok, p. 53



* título inspirado no conto "Os Espelhos" do livro referido antes de JLB.