31 agosto, 2009

state of mind

state of mind
© SherwinJames

30 agosto, 2009

um lugar em que me encontro

Desenho de Gisela Ramos Rosa, tinta da china em papel


"Mesmo que o nosso querer seja pequeno: Deus está a amadurecer."

Rilke


Se deus for este lugar
interior em que me reconheço
tu és o prolongamento exterior
desse lugar
em que o meu olhar recai

E a existência sem existência
prolonga-se na incerteza
de todos os conceitos e limites
porque tu és parte
do que não podes ver
porque se deus for este lugar interior
em que me reconheço

Tu és o nome e o tempo
de tudo o que me pode configurar

Gisela Ramos Rosa, Agosto de 2009

23 agosto, 2009

on the clouds

on the clouds
© plusque



El dia abre la mano
tres nubes
Y estas pocas palabras

Octávio Paz



É domingo nas margens do silêncio
jogo com as palavras para respirar
e nas margens brancas dançam duas faces
é nas pupilas que o fogo desponta
e entre as sílabas acendem-se regatos
veios que respiram
o puro movimento de uma mão

Gisela Ramos Rosa, Vasos Comunicantes, Diálogo poético com António Ramos Rosa, 2006, p. 51

20 agosto, 2009

reflexos de um rio que se ignora

Heaven can wait
© Schnette



"No início não existe a folha em branco, essa chega muito depois. No início, existe uma linha de sentido mergulhada no interior do caos. Há o tempo, pessoas que nascem e que morrem, séculos que imaginamos antes e depois de nós, idades que usamos como disfarces, como fatos nos casamentos; há o mundo, todos os seus cenários, esgotos e planícies, adereços à distância dos nossos gestos, muros que condicionam o caminho; e existimos nós, indecisos e incorrectos, com braços e pernas, com pele e feitio, com espírito ou, pelo menos com a possibilidade de espírito, com a ideia. Depois existem as possibilidades e as dúvidas a lançar estes três elementos - tempo, espaço e sujeito - uns contra os outros....o aleatório faz malabarismo à nossa volta e, de repente, podemos distinguir uma linha de sentido: algo que se relaciona com algo. Essa peça, por sua vez, poderá relacionar-se com outra, que se relacionará com outra, etc. Salta-se de pedra em pedra ignorando-se o rio....
Continuamos a juntar os pequenos pontos e, aos poucos, distinguimos uma forma. Esse é o início. Só a seguir, consoante a lua e o aparelho nervoso, chega a folha em branco com todas as suas lendas..."

José Luís Peixoto, Verdades quase verdadeiras, Jornal de Letras, Agosto 2009, p. 41

15 agosto, 2009

Desmancha-se o cavalo?

Ride a white horse....
© Petra


Desmancha-se o cavalo? Jamais.
a resposta vem da força dele.
corre por cima dos desastres.
é fogo e pedra alta bem talhada.
(…)
Vive, portanto, mais alto do que o tempo.

António Ramos Rosa, p. 69, em Casimiro de Brito, Vagabundagem na poesia de ARR

13 agosto, 2009

O tapete da vida

sunset light
© initial

Sou eu, não temas. Nao me ouves quebrar
em ti todos os meus sentidos?
O meu sentir que asas veio a encontrar,
voa, branco, à volta da tua face sem ruídos.
Não vês a minha alma de silêncio vestida
mesmo frente a ti aparecida?
Não amadurece minha oração em flor
no teu olhar como numa árvore de suave odor?

Eu sou o teu sonho, se sonhador fores.
Sou a tua vontade, se velar quiseres
e apodero-me da magnificência sem par
e arredondo-me como um silêncio estelar
sobre a estranha cidade do tempo a passar.


Rainer Maria Rilke, O livro de Horas, p. 65


* O título foi também retirado do prefácio de Maria Teresa Dias Furtado ao livro de Rilke.

09 agosto, 2009

In time





Vejo as rosas

elas ensinam-me a reconhecer

tantas outras flores

os odores da terra

onde o musgo verde dinamiza os abetos

e a Era se eleva em movimentos que só o vento pressente

rosas de todas as cores

pronunciando magmas do centro

para que na forma do fogo meu corpo se construa

incandescente

soletrando a cadência leve da folhagem

roçando picos agudos de caules breves e estreitos

passagens verticais que protegem

In time, © Mal Smart



o nascimento da flor

pressinto o som das cores

quando sinto o jardim que se abre a meu olhar

e nele descubro esboços de Deus

na natureza


Gisela Ramos Rosa

27-04-04


06 agosto, 2009

Ainda há alguém a construir?








Que eu não fui há um momento,
sabes já? E tu dizes não saber.
Então sinto que se não andar a correr,
posso nunca ter passado totalmente.

Sim, mais do que sonho de um sonho sou.
Só o que a limites consolidados aspirou,
é como um dia e como um som que esvoaça;
pelas tuas mãos inominado passa,
para a múltipla liberdade encontrar,
e elas com tristeza o vêm a abandonar.

E o escuro apenas para ti ficou,
e, crescendo para a luz vazia,
uma história do mundo se erguia
de uma pedra que cada vez mais cegou.
Ainda há alguém a construir?
As massas de novo às massas dão voltas,
as pedras estão como soltas

E nenhuma foi por ti talhada...

Rainer Maria Rilke, O Livro de Horas, p. 161



* Agradeço do fundo do coração o livro de onde colhi este poema, à minha amiga Maria Teresa Dias Furtado, tradutora e especialista de Rainer Maria Rilke.





after the end .2
© final toto



03 agosto, 2009

Life


Life, © final toto


Le souvenir du Vrai est vaste et quand je le rappelle, ma langue a la douceur du miel. Je me change en esclave. Alors mon coeur, comme l´oiseau qui veut s´envoler, bat des ailes.

*Hodja Ahmad Yassavi (1105-1165), Ghazels Ouzbekes, p. 11


*Un des premieres poètes de langue turque, fondateurs de l´ordre religieux "yassavia", extremement populaire en Asie centrale (Turkestan).

01 agosto, 2009

o templo dos sonhos


the unforgiven way
© final toto


visito por instantes esse templo
do tempo que guarda rastos de areia e vento
nele há gotas de orvalho e de um sono antigo
transparecendo como velas do desejo

há um templo que me acolhe
como um anjo que na neblina formula gestos
numa barca que ondula no silêncio

há toda uma dança cujo sabor me antecede
quando sonho com a poalha das marés
onde o movimento se esbate

e prolongo os braços na indizível matéria
onde o mastro é agora templo do corpo
que me sonha


Gisela Ramos Rosa, O Templo dos Sonhos, poema publicado na Antologia de Poetas Contemporâneos, Entre o Sono e o Sonho II, Julho de 2009