30 julho, 2009

L´invisible commence dans l´oeil

Miró


Qu´est-ce que je ne vois pas dans ce que je vois? Cette question devrait accompagner chacun de nos regards.

Bernard Noel, Journal du Regard, p. 80

26 julho, 2009

mais le soleil aussi réclame ton visage, ô âme

Trevos, 26 de Julho de 2009


Montre ton visage, ta silhouette, ta démarche, fais honte aux fleurs, aux cyprès du jardin.

Sans Amour, nous ne sommes pas des hommes et des femmes: si tu es humain, choisis l´Amour.

Parce que tu m´as révélé ce secret entre Dieu et moi-même viens dresser la potence de l´avenir.


Nodira, (1792-1842), Ghazels Ouzbekes, Action Poétique, p. 37
Née à Andijane. A trente ans, elle perdit son mari Omarkhan, poète et governer du Khanat de Konda. Elle passa le reste de sa vie avec des amateurs et es protecteurs de la littérature. Les ghazels de Nodira, très musicaux, sont ancore courament chantés.


*O título é da autoria de Ouvaissi," poétesse de la cour de Kokant et amie de Nodira"

21 julho, 2009

a rosa é sem porquê

21-07-09

* o título é da autoria de Angelus Silesius

19 julho, 2009

a voz do meu corpo e do teu












A VOZ ANÓNIMA

A voz de uma só árvore desconhecida
de um só murmúrio no livro de todos os livros de ninguém
a voz extrema do princípio inacabado
a voz do acaso revelador e do desejo errante e sepultado
a voz que quer fugir de si e da pele viva do mundo
e da noite e da morte e do naufrágio da terra e da obstinação do mar
e de todos os homens num só homem solitário
a voz anónima de sempre e de nunca num só ponto
num grito inaudível num grito puro
com todo o sentido do silêncio e não sentido
a voz da cinza permanente a voz viva do fogo
a voz que quer fugir de todas as definições e conclusões
de todas as máscaras de todas as carapaças e pedregulhos
de todos os nomes
do meu e do teu
a voz nua sem corpo na voz nua do corpo
a voz submersa traída assassinada em todas as referências
a voz da apropriação e da propriedade de todas as coisas
a voz do silêncio e da cinza de todas as pretensões
a voz estranha e obstinante
a voz do género e do único adicionado
a voz inexprimível a voz do deserto
a voz da figura construída e desconstruída
a voz do meu corpo e do teu
a voz que quer viver
a voz impaciente que quer esquecer-se de que espera
e de que não pode esperar
a voz da criança que ascende para o sol num arco
a voz do fogo que quer perder-se no sono de uma chama
fugir sempre fugir partir sempre partir
extrair-me de ser e de querer ser
não ser ninguém nem de ninguém
lá onde me perco e me encontro entre o sol e o mar
lá no centro perdido lá na respiração da água do ar
na surpresa de ser nascente do poema
no encanto do encontro
lá num só ponto num só espaço lá...

António Ramos Rosa, Novembro de 2003

* Poema passado por mim, já publicado neste blog em manuscrito, quando um dia fui visitar o meu tio que estava movido pela força genial deste poema. Pediu-me para que o difundisse por todos os amigos. Assim o fiz. Este poema foi depois publicado na Revista Babilónia da Universidade Lusófona.


O desenho é de Fevereiro de 2009

18 julho, 2009

Self-reflection












Se tivesse que falar de Deus às crianças eu diria:

− Deus é tudo o que não magoa e faz sorrir.


Si tuviese que hablar de Dios a los niños yo diría:

− Dios es todo lo que no hace daño y hace sonreír.



Tchivinguiro, em http://perolasdeouro.blogspot.com








© SyAmsi

16 julho, 2009

a revelação


Ceilidh - The Dance (Welsh)



Estava prescrito. A revelação - incompleta - foi-lhe trazida através do sonho quando chegou o momento de se consciencializar. Sempre através do sonho se lhe fizeram presentes as vozes ocultas. Algo, porém, aqui permanecia na obscuridade - porque sempre o terror da iminência a despertara antes da revelação total. Donde a perseverança com que volvia a tentar impor-se à receptividade, para lé do terror. Mas a recusa prevalecia. Tudo em si apelava à negação do que se lhe revelava. Ficava-lhe a memória da treva, de um rodopiar no vácuo, da presença insondável do abismo para onde convergia debatendo-se até que o despertar a libertasse.

25-4-90

Agripina Costa Marques, Sonhos, p. 7

12 julho, 2009

Todas as ilhas são secretas



fusion: le regardeur et le regardé se touchent en l´air. Il n´y a plus de limite. Tout est le même espace.
Bernard Noel, Le Jounal du Regard, 1988

09 julho, 2009

a face dos signos















Guarda a manhã
Tudo o mais se pode tresmalhar

Porque tu és o meio da manhã
O ponto mais alto da luz
Em explosão

Daniel Faria, Poesia, p. 80










Desenho de António Ramos Rosa, 2005

05 julho, 2009

observando a "harmonia das esferas"



Torre do Zigurate, situa-se no Terraço dos Mundos Celestes em frente ao poço iniciático e simboliza uma estrutura apta à contemplação dos mundos celestes e à observação da "harmonia das esferas" - Quinta da Regaleira em Sintra *

É preciso descer lucidamente os poços com degraus
e encontrar os seus estados sucessivos,
pois, para atingir o Paraíso, é preciso, obrigatoriamente,
passar pelo inferno, um dos estados da iniciação:
a realização efectua-se no núcleo de pedra
e a segunda morte iniciática reside na cristalização subtil,
Mas o eleito encontrará aí a força ascensional
que lhe permitirá alcançar o céu,
pois soube recolhê-la no Templo subterrâneo.

Jean-Pierre Bayard
La Simbolique des Mondes Souterrains, p. 76
in Anes, José, Os Jardins Iniciáticos da Quinta da Regaleira, p. 74, 2005


Tradução
para espanhol do poema de Jean-Pierre Bayard feita por Agustin Talledo, em http://elviejoagustin.blogspot.com/

...Es imprescindible recorrer paso a paso y lucidamente, la escalera que desciende hasta la profundidad y encontrar en casda escalón los estados sucesivos de nuestra historia personal.
Para llegar al Paraíso es preciso indefectiblemente pasar por elinfierno, es como un rito iniciático;donde la realización se consagra en la partición del núcleo duro de nuestro pasado.
Para llegar al paso final de la muerte, en el que se logra la cristalización sutil de la experiencia de vida; el "Elegido" encontrará la fuerza suficiente, para emerger desde las profundidades y allí alcanzar el cielo.
Logro sencillamente obtenido por el simple transito del camino al templo subterráneo...

Versión libre, de la pobre traducción, del texto de Jean Pierre Bayard.
Fragmento página 76, de la versión en Portugués.

04 julho, 2009

a barreira do espaço

© Mario Jean, reflections


Chamo aqui de forma enviesada um pequeno excerto de uma reflexão sobre o espaço que abordei na minha tese de mestrado em Relações Interculturais (área de antropologia visual). A razão pela qual o coloco hoje neste lugar associando-o à belíssima imagem de Mario Jean (de uma barreira/espelho) inscreve-se na necessidade de mostrar como o espaço físico influi no espaço mental e consequentemente nas relações humanas quaisquer que sejam. O modelo que se aplica às cidades, pode ser transposto para outros lugares.

Nas cidades, o desenho das ruas, das praças, dos jardins, da concepção de centro e de periferia não são convencionadas por acaso (Silvano). Diria que é como se a estrutura ganhasse corpo ao materializar vontades ordenadoras que regulam espacialmente a massa social.
A análise das relações entre o espaço e o poder em Foucault (1999) é sublime. É no espaço que se colocam ou posicionam as relações humanas e é através destas que são traçados os lugares. Na sua obra (Foucault, 1975) associa ao corpo social a criação de espaços de enclausuramento. Estes são mantidos por um aparathus que cria os procedimentos pelos quais fixa, distribui e classifica os indivíduos, limitando-lhes a força e tornando-os visíveis através de um esquema de observação (mediático), de registo e anotação (Foucault, 1999:233). Com este autor, percebemos como uma rede de "micropoderes" desenvolve estratégias locais, regionais e familiares através de regulamentos que estabelecem a manutenção de relações específicas e localizadas entre os indivíduos. O espaço serve, pois, de meio e molde de uma acção conjugada, que mantém os indivíduos neutralizados por relações de poder balizadas por vários constrangimentos e pelas relações de produção. O poder apropria-se e marca todo o espaço (Pais, 2001) tornando desigual o acesso à mobilidade no seu seio, por conseguinte, vários condicionalismos materiais e culturais afectarão a distribuição humana no espaço.

Fica este breve texto para pensarmos por instantes numa questão sobre a qual penso devermos reflectir porque existimos, para além dos sonhos.


in Olhar a Diferença, Percurso antropológico pelas Imagens das Margens Sociais, Lisboa, 2002

03 julho, 2009

Do sagrado


Nada indicava o caminho
apenas os instantes perseguiam a imagem
os sentidos configuravam curvas, esquinas

nas pedras descansavam os rios e os raios de sol
em movimentos de espessura breve
e a chuva inaugurava o leito adormecendo
para acordar ofuscada por pequenas partículas

nada revelava os membros vincados nas esteiras
nem mesmo o som dos búzios corroídos pelo sal

apenas a areia permanecia no horizonte
com os seus animais de luz
e as cores e os traços constituíam a matéria
que reclamava a forma e os reflexos
vibrantes nesta água

Gisela Rosa, 2008



*Agradeço à Conceição Antunes a imagem de Emilly Carr que gentilmente me trouxe do Canadá.