29 abril, 2009

a lenta luz deste poema


Desenho de António Ramos Rosa (2004), caneta tombo em papel A4

Este poema é desenhado com as mãos
de todas as sensações contidas
com os dedos que tocam a grafia desértica da lua
e sentem a leveza branca das montanhas
e a luz vagarosa que se expande

sinto na boca o sabor de um fruto fresco
suspenso em cada sílaba de sal
os meus gestos desenham calmas marés
e nos ombros repousa uma melodia inacabada
quero unir a lenta luz deste poema
às carícias tímidas de um arbusto
que dança levemente com a folhagem

Gisela Ramos Rosa

26 abril, 2009

La mer


Na direcção do Mar, fotografia de Gisela Rosa, Abril de 2009.


Homme libre, toujours tu chériras la mer.

Charles Baudelaire (1821-1867)

25 abril, 2009

O que não pode ser dito


António Ramos Rosa a ler o seu livro "O que não pode ser dito", fotografia de Gisela Rosa (24-04-09, no meu sótão).


Reprodução de manuscrito de António Ramos Rosa - transcrição de excerto de Bernard Noel.

22 abril, 2009

Pero qué hay adentro de los números?


Desenho de António Ramos Rosa, Fotografia de Gisela Rosa - 2009


Qué hay detrás de los números?
Y qué hay delante?

Todas las cosas se mueven,
hasta las piedras y los muertos.
Los números no se mueven:
sólo dejan su lugar a otros números.
Pero cuál es el lugar de los números?

Cuando los escribimos sobre un papel
les inventamos un lugar,
como ellos nos inventan a veces
un lugar a nosotros.

Todas las cosas quieren reemplazarnos,
pero los números no.
Se parecen al ser:
no están en ningún lugar.

Pero qué hay adentro de los números?
El simulacro de la medida
y las máscaras de los signos
nos han hecho olvidar su sustancia.

Roberto Juarroz, Onzième - POÉSIE VERTICALE, édition bilingue, 1990



* Não poderia colocar este poema sem contar que foi o meu tio António Ramos Rosa que me o deu a ler na última visita que lhe fiz. Não foi a primeira vez que o poeta me revelou o seu interesse na reflexão sobre os números, pelo valor que lhes atribuímos em termos de conteúdo e/ou forma simbólica. Linhas no espaço? Talvez. Abstrações que estão em todo o lado (Pitágoras), por certo. Já Galileu em Il Saggiatore dizia que "o Universo está escrito com linguagem matemática"..

Este poema de Juarroz serviu mesmo de mote a um poema que o meu tio fez e me ditou. Associo ao poema de RJ um desenho de António Ramos Rosa feito há duas semanas atrás com tinta-da-china.

**O título é um verso de Roberto Juarroz.

18 abril, 2009

A realidade é uma passagem, como o tempo


Sonho, Caligrafia árabe de Lassaad Metoui, fotografia de Gisela Rosa


Segundo Zambrano, cada vida substancializa-se num argumento que consiste no desenrolar dos acontecimentos que permitem a realização da finalidade de que a vida está dotada. O argumento necessita de um futuro para se desenvolver, ou, mais precisamente, de uma abertura positiva ao horizonte de tempo futuro, por forma a permitir a vivência da esperança (que consiste num "vazio activo"), de tal modo que a pessoa, assim vitalizada, adquire força suficiente para se ocupar da realização ou cumprimento da sua finalidade-destino (N.T.) (Zambrano, p. 77).


...E há que despertar, ir despertando, o que significa ir despertando para o ser do seu sonho, despertar com ele. (Zambrano, p.70)

María Zambrano, O Sonho Criador, pp. 77 e 70



* O título deste post é baseado no mesmo livro.

15 abril, 2009

L´imperfection est la cime


Desenho de Gisela Rosa, tinta-da-china em papel, Abril de 2009


"L´imperfection est la cime"

Yves Bonnefois, citado por António Ramos Rosa ao ver este desenho

12 abril, 2009

Não posso adiar este abraço...


Tradução do poema em língua árabe - fotografia de Gisela Rosa, obtida a partir da revista Poesia do Sec. XX com António Ramos Rosa ao fundo, organização de Ana Paula Coutinho Mendes, ULP - 2005.


Não posso adiar o amor para outro século
Não posso
Ainda que o grito sufoque na garganta
Ainda que o ódio estale e crepite e arda
Sob montanhas cinzentas
E montanhas cinzentas
Não posso adiar este abraço
Que é uma arma de dois gumes
Amor e ódio

Não posso adiar
Ainda que a noite pese séculos sobre as costas
E a aurora indecisa demore
Não posso adiar para outro século a minha vida
Nem o meu amor
Nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração

António Ramos Rosa


*Este poema foi publicado em várias línguas, entre elas a romena, a búlgara e a russa, na revista Poesia do Sec. XX com António Ramos Rosa ao fundo, organização de Ana Paula Coutinho Mendes, da Univ. de Letras do Porto - 2005.

10 abril, 2009

Allá, donde terminam las fronteras...


Fotografia de Steve McCurry, Índia.



Allá, donde terminam las fronteras, los caminos se borran. Donde empieza el silencio. Avanzo lentamente y pueblo la noche de estrellas, de palabras, de la respiración de un agua remota que me espera donde comienza el alba.

Invento la víspera, la noche, el día siguiente que se levanta en su lecho de piedra y recorre com ojos límpidos un mundo penosamente soñado. Sostengo al árbol, a la nube, a la roca, al mar, presentimiento de dicha, invenciones que desfallecen y vacilan frente a la luz que disgrega (....)

Invento la quemadura y el aullido, la masturbación en las letrinas, las visiones en el muladar, la prisón, el piojo y el chancro, la pelea por la sopa, la delación, los animales viscosos, los contactos innobes, los interrogatorios nocturnos, el examen de conciencia, el juez, la víctima, el testigo. Tú eres esos tres. A quién apelar ahora y con qué argucias destruir al que te acusa? Inútiles los memoriales, los ayes y los alegatos. Inútil tocar a puertas condenadas. No hay puertas, hay espejos. Inútil cerrar los ojos o volver entre los hombres: esta lucidez ya no me abandona. Romperé los espejos, haré trizas mi imagen – que cada mañana rehace piadosamente mi cúmplice, mi delator. La soledad de la conciencia y la conciencia de la soledad, el día a pan y agua, la noche sin agua. Sequía, campo arrasado por um sol sin párpados, ojo atroz, oh conciencia, presente puro donde pasado y porvenir arden sin fulgor ni esperanza. Todo desemboca en esta eternidad que no desemboca.

Allá, donde los caminos se borran, donde acaba el silencio, invento la desesperación, la mente que me concibe, la mano que me dibuja, el ojo que me descubre. Invento al amigo que me inventa, mi semejante; y a la mujer, mi contrario: torre que corono de banderas, muralla que escalan mis espumas, ciudad devastada que renace lentamente bajo la dominación de mis ojos.

Contra el silencio y el bullicio invento la Palabra, libertad que se inventa y me inventa cada día.


Octávio Paz, Libertad Bajo Palabra, in La Centena.

07 abril, 2009

O que sente o poeta quando desenha?



António Ramos Rosa a desenhar com tinta-da-china, ontem.
Fotografias de Gisela Rosa.

Ontem de visita aos meus tios António e Agripina resolvi levar o pincel japonês e a tinta-da-china para que o poeta pudesse experimentar o desenho com outros instrumentos. A poesia em forma de traços com rasto foi surgindo e acabou mesmo por preencher um bloco Canson A5. As mãos adoraram a aventura e a alma do poeta pôde transcender-se na página aberta a novas formas de risco criativo com a tinta líquida da china e os inesperados rastos do pincel.

Deixo aqui a resposta do poeta em vídeo à pergunta que lhe coloquei no final bem como uma das sequências que resultou neste dia:


O que é que o tio sente quando desenha?



António Ramos Rosa, vídeo de Gisela Rosa (ontem).


*peço desculpa pela qualidade da imagem que não é das melhores.

06 abril, 2009

onde a nudez habita


Bambu e a minha reprodução de Picasso, fotografia de Gisela Rosa 2008.



Tudo começa aqui
no desamparo do horizonte nulo
aqui nasce o corpo no seu espaço virgem
de súbito uma espiral se ergue
ou quase o arco ainda entre o céu e o céu

António Ramos Rosa, Dinâmica Subtil, p. 41
.



* O título deste post é um verso de António Ramos Rosa do livro acima referido.

02 abril, 2009

Corps Écrit


Pedras Vivas, o lugar do poeta António Ramos Rosa, fotografia de
Gisela Rosa Março de 2009



....No, no sueno. Vigor
De creación concluye
Su paraíso aquí:
Penumbra de costumbre....

Jorge Guillén, "Más Allá" in Cántico


* O título deste post é também o título de uma revista de literatura francesa "Corps Écrit"