31 março, 2009

Figurações




Desenhos de António Ramos Rosa - 2009.


Há qualquer coisa de maravilhosamente antigo nos desenhos de Ramos Rosa. artesanal,vindo de dentro,à mão,com a alma.
Sem teclas, de qualquer modo!


José Manuel Vilhena
(comentário a este post que aqui reproduzo)



Em poucos traços, a captura da alma
.

mariab (reprodução de comentário a este post)

* O título deste post é o nome de um livro de António Ramos Rosa
de 1979.

29 março, 2009

e estas ilhas brancas suavíssimas

Fotografia de Steve McCurry, Paquistão

Fotografia de Steve McCurry, Índia, em http://www.art-dept.com/artists/mccurry/


O título deste post é um verso do poema de António Ramos Rosa colocado no post anterior ...

28 março, 2009

Mas o mundo é ainda a substância

Pol-e Khomri, Afeganistão 1992. Fotografia de Steve McCurry

O mundo é um rumor de martelos e de gritos de criança
e é este vazio fundo de tristeza
de quem se extraviou desde a origem
Mas o mundo é ainda a substância
solar e a serenidade incandescente
de um mistério para sempre silencioso
E mais que o rumor o mundo é a distância
que através dos ruídos faz sentir a monótona
imensidade que se recolhe quanto se prolonga
E sentimos muito longe a esfera iluminada
ainda que envolvidos pela paz solar
e pelo vazio puro de uma luz inextinguível
Nada é imediato já Nenhuma urgência
Que permaneça só a solidão tão nítida
e estas ilhas brancas suavíssimas
cuja frescura se pressente entre a folhagem
E que continue o murmúrio luminoso
na sua língua de silêncio e de espaço
para que nos nimbe da sua claridade

António Ramos Rosa, O Livro da Ignorância (1988, p. 84)

25 março, 2009

memória de perfis

Fotografia de Rui Manuel Machado Rodrigues (a quem muito agradeço a cedência da imagem), em http://olhares.aeiou.pt/bw_foto2644463.html



De há muito colecciono deslumbrado
memória de perfis
corpos serenos
madrugadas de esperança
altos morenos campanários
urbanos alcantis.
Viajo pelo céu impenitente
repouso numa nuvem reclinado
retomo a marcha sempre apaixonado
astronauta de sonhos infantis


Lagoa Henriques, in Jornal de Letras 11-24 Março 2009, p. 10

23 março, 2009

Aqui

Fotografia de Maria José Amorim (a quem muito agradeço a imagem), em http://olhares.aeiou.pt/penso_foto1774958.html



Hay fragmentos de palabras adentro de todas las cosas, como restos de una antigua siembra.

Roberto Juarroz, Los extremos de la palabra

21 março, 2009

Uma pausa de luz

Desenho de António Ramos Rosa 2001

Desenho de António Ramos Rosa, fotografia de Gisela Rosa - 2009



Vegetações de relâmpagos,
geometrias de ecos:
sobre a folha de papel
o poema faz-se
como o dia
sobre a palma do espaço


Octávio Paz



* o título deste post é um verso da autoria de Octávio Paz

19 março, 2009

Tous simplement border le monde


António Ramos Rosa a desenhar, fotografias de Gisela Rosa


Dans nos paroles, dans nos mots
le vide accède à sa propre dépossession

Jean Louis Giovannoni, Pas Japonais


O título deste post é um verso da autoria de
Jean Louis Giovannoni.

18 março, 2009

O poema é a semelhança

António Ramos Rosa a ler, fotografia de Gisela Rosa, Outubro de 2008



Le poème perpétue un instant de la vie du mot, une sourire, une rencontre.

Edmond Jabès, Je Bâtis ma demeure, p. 306



* o título deste post é um verso de Edmond Jabés (idem, p. 309)

17 março, 2009

O arco-Íris

O olhar do Hélder, fotografia de Gisela Rosa


Os olhos reflectem dois mundos em movimento, o interior (alma) e o exterior (luz)...Hélder significa luz, este olhar é do meu filho...

15 março, 2009

O corpo dança a gramática do sentido

Pássaro livre, fotografia de António Gil, em http://olhares.aeiou.pt/passaro_livre_foto2527917.html


No começo era o movimento.

Não havia repouso porque não havia paragem do movimento. O repouso era apenas uma imagem demasiado vasta daquilo que se movia, uma imagem infinitamente fatigada que afrouxava o movimento. Crescia-se para repousar, misturavam-se os mapas, reunia-se o espaço, unificava-se o tempo num presente que parecia estar em toda a parte, para sempre, ao mesmo tempo. Suspirava-se de alívio, pensava-se ter-se alcançado a imobilidade. Era possível enfim olhar-se a si próprio numa imagem apaziguadora de si e do mundo.

Era esquecer o movimento que continuava em silêncio no fundo dos corpos. Microscopicamente. Porque, como se passaria do movimento ao repouso se não houvesse já movimento no repouso?

No começo não havia pois começo.

No começo era o movimento porque o começo era o homem de pé, na Terra. Erguera-se sobre os dois pés oscilando, visando o equilíbrio. O corpo não era mais que um campo de forças atravessado por mil correntes, tensões, movimentos. Buscava um ponto de apoio. Uma espécie de parapeito contra esse tumulto que abalava os seus ossos e a sua carne.

Então a linguagem nascia num relâmpago, os sons combinavam-se, as palavras encadeavam-se, os sentidos incendiavam-se, a marcha desencadeava os seus passos na alegria, e hesitava na angústia de cair. A vida transbordava.

O bailarino retoma o seu corpo nesse momento preciso em que perde o seu equilíbrio e se arrisca a cair no vazio. Luta, jogando tudo por tudo: está em jogo a sua vida, a sua liberdade de bailarino, a sua luz. Faz apelo ao movimento, que proporcionará claridade e estabilidade à sua extrema agitação interior. Por meio de movimento domará o movimento: com um gesto libertará a velocidade que arrebatará o seu corpo traçando uma forma de espaço. Uma forma de espaço-corpo efémero, por cima do abismo.(...)

José Gil, Movimento Total - O corpo e a Dança, Prólogo, pp.13-14, 2001



* o título deste post foi extraído do livro de José Gil (idem, p.119) acima referido.

14 março, 2009

A rosa

Botão de rosa príncipe negro, fotografia de Gisela Rosa



A rosa,
a imarcescível rosa que não canto,
a que é peso e fragrância,
a do negro jardim na alta noite,
a de qualquer jardim e qualquer tarde,
a rosa que ressurge da ténue
cinza através da arte da alquimia,
a rosa dos persas e de Ariosto,
a que sempre está só,
a que sempre é a rosa das rosas,
a jovem flor platónica,
a ardente e cega rosa que não canto,
a rosa inalcançável.

Jorge Luís Borges, A rosa

10 março, 2009

e o teu rosto foge à designação?





Desenhos de António Ramos Rosa, caneta tombo em suporte de cartolina de cor amarela,
fotografias de Gisela Rosa Outubro de 2008


É muitas vezes no jardim da residência onde o meu tio António Ramos Rosa mora que eu lhe peço para desenhar em suportes de cartolina coloridos porque ambos mergulhamos nos traços, nas cores e nas formas da sua criação.
Estes desenhos fazem parte de uma sequência por isso os reuno aqui.


* o título deste post é um verso de um poema da autoria de António Ramos Rosa (Vasos Comunicantes - 2006)

08 março, 2009

para através dos seus olhos

Fotografia de Rui Manuel Machado Rodrigues, em http://olhares.aeiou.pt/smile_rui_manuel_machado_rodrigues_foto2568549.html



se me fosse permitido conceber um fruto
chamá-lo-ía romã como o vinho
e docemente olharia o seu rosto
com a pele tecida pelo tempo que guardo
no coração

e voltaria a nomeá-lo como se todas as manhãs
o olhasse lá do alto das estrelas
para através dos seus olhos
sentir o que me é permitido ver
neste sorriso mensageiro de ternura

Gisela Rosa (08-03-2009)

Essa condição de seres forma

Fotografia de Nuno Abreu, em http://olhares.aeiou.pt/mulher_foto530152.html



Mulher essa tua condição de forma
esse teu estado perene de seres a flor
de um outro ser
essa potência que no teu interior geras
espelha o mundo em movimento

tua pele serena e macia lembra os nenúfares
que flutuam num cíclico rio
vestes o traje branco da mudança
depois de um arco-íris metamorfosear o teu corpo
com as raízes e a profundeza dos rios

Mulher dessa condição de seres Terra
brotam imagens rostos de uma flor ou de uma pedra
um arco de fogo iluminando a areia o tempo
o vigor genésico de um fruto antigo


Gisela Rosa
2007

07 março, 2009

A géstica dos afectos


Poema (acima) e desenho (abaixo) de António Ramos Rosa, Dezembro de 2001 (inéditos)

03 março, 2009

O nosso olhar

Nioki...Republica Democrática do Congo, fotografia de Rui Manuel Machado Rodrigues
em http://olhares.aeiou.pt/sem_comentarios_foto2549261.html



O nosso olhar não tem fronteiras ou estações
não é uma arma que dispara um tiro
imediatamente o espaço é a inocência do seu dom
ao sol e na sombra a sua projecção imperceptível

Para uma longínqua estrela uma árvore ou uma flor no chão
não necessita de uma medida as distâncias equivalem-se
o olhar não nos pertence como um instrumento ou um meio
a sua límpida visão vem de uma obscura esfera
e no seu átrio o ponto de partida não é o ponto
mas a abertura imediata que nos projecta no espaço
imperceptivelmente numa visão de um instante
e o visível é a evidência do real
de um fascínio de qualidades puras
de surpresa em surpresa de cores formas e tons
respirados pelo corpo na sua mais ampla latitude

António Ramos Rosa, O nosso Olhar,
in Revista Mealibra nº 3, Outono de 2008

(poema passado a computador por Gisela Rosa em 28-12-2004)


* O meu tio António Ramos Rosa pediu-me que publicasse este poema no meu blog. Tarefa que
agora cumpro associando ao poema a imagem extraordinária de Nioki da autoria de Rui Rodrigues,
a quem muito agradeço.

01 março, 2009

Os arabescos do tempo

Desenho de Gisela Rosa, tinta da china em papel , 2009


Desenho rosas
para esboçar um canteiro de grafites
caminho com os arabescos do tempo
a chave a areia o vento o vidro
e encontro os veios do fogo
que me eleva ao canto da forma
animo o torno e os triângulos nascem
numa espiral de pétalas em tons de rosa

Gisela Rosa, Vasos Comunicantes (2006, p.45)