30 janeiro, 2009

"para ser feliz basta pouco"

Fotografia de Rui Manuel Machado Rodrigues, em http://olhares.aeiou.pt/new_look_foto2502162.html

"Eram muitas as crianças, todas sorriam, acenavam com as suas maõzinhas "chocolate", com a sua inocência, com as suas almas cheias de esperança, cheias de liberdade...Mas tu brilhavas no meio de todas, estavas bonita, com um cabelo magnífico,cativaste logo a minha curiosidade. Desculpa se te assustei, mas sabes como é um forasteiro, pasma-se com tudo o que vê. Porem, nem mesmo assim, deixaste de brilhar, no meio de tantas estrelas...Obrigado por me recordares, que para ser feliz basta pouco..."

Répública Democrática do Congo.
Zona de Inongo 08
em
http://olhares.aeiou.pt/new_look_foto2502162.html
* Agradeço ao fotógrafo Rui M.M..Rodrigues a cedência das suas imagens (e este texto da sua autoria) desta série de crianças do Congo que me fascinou.


"...este poema tem os olhos de uma lágrima
de um sorriso entre cabelos de chuva
e nós o abrimos como um fruto como um livro
e o povoamos como um pensamento solitário
que se embebeda na brancura
como o fruto de uma tristeza límpida
como um animal aberto pelo seu sopro vivo"

António Ramos Rosa, Vasos Comunicantes, p. 90, 2006

28 janeiro, 2009

Um olhar por detrás das mãos

Fotografia de Rui Manuel Machado Rodrigues, em http://olhares.aeiou.pt/les_enfant_foto2500614.html


um olhar por detrás das mãos

"...e tudo o mais de um único sentimento
que envolvendo o coração sai - para dizer o inexprimível
que em todas as palavras germina, para além delas"

António Ramos Rosa

25 janeiro, 2009

Olhas através de um corpo leve

Fotografia de Rui Manuel Machado Rodrigues, em http://olhares.aeiou.pt/next_generation_foto2500633.html



Cada coisa que vemos é feliz

e nós somos o seu silêncio
ou o seu nome.

António Ramos Rosa, horizonte a ocidente, p. 40



Criança olhas-me com os teus rostos múltiplos
vejo-te na atmosfera de uma miragem
na tecitura de um devir outro

nos teus olhos encontro
a claridade e o fogo
e as sombras fecundas de ontem

ninguém vê o teu pulso frágil
a tua página ainda é branca

olhas através de um corpo leve
no interior do (in)visível

no teu rosto fervilha a nudez do coração
e a memória dos mundos incompletos


Criança em ti repousa a eternidade


Gisela Rosa

22 janeiro, 2009

Se o poema nasce

A flor da magnólia, fotografia de Gisela Rosa



A palavra poética nunca pode ser falsa porque é total

Roland Barthes, O grau zero da escrita, p. 43



Se o poema nasce
de um lugar onde brota uma corrente
uma lamparina de música ou de água
eclode na margem no litoral da página

e a distância é um remo em movimento
que desenha a incansável linha
do teu rosto

como se escrevesses evidências lentas
de uma ferida espessa que não sangra
por nela teres vertido as palavras brancas
de um léxico sereno

e se na distância construímos a presença
deste afluente com a cor do âmbar
sabemos que o poema é um arco azul
por onde leves e dóceis olhamos
a harmoniosa dança das corolas

Gisela Rosa

18 janeiro, 2009

A porta azul

Fotografia de Teresa Lamas Serra, em http://teresalamasserra.blogspot.com/

Soy yo el espejo. Vamos.

Reflejar es amar.

Jorge Guillén, Cântico, Tiempo Libre

Com as mãos projecto os muros

para além da Casa

construo extensões da alma

modelo verbos silêncios

apuro os sentidos na paisagem

para habitar este lugar transitório


com as mãos suspensas na página

observo a harmonia da linhas do mundo

como se o meu corpo fosse uma gaivota
voando voando voando na rotação

de um movimento original


retornando às mãos

reencontro as rotas da criação

e recordo com o sabor agudo da língua

a água do mar

nelas mergulho o corpo

e respiro


gisela rosa

13 janeiro, 2009

Nas margens do rio, do tempo

fotografia de gisela rosa, 2008


“Nas margens dos rios imaginando pontes”
Daniel Faria



Nas margens reinventamos
qualquer espaço sem nunca
nos deixarmos deter por ele

somos caracteres em trânsito
na página que principia
e acrescenta símbolos à matéria

nesse oásis branco a paisagem
da montanha do cume da corola
e das coisas como chamas

nas mãos o fluxo das fibras
encadeadas em lentas contracções
filamentos que tecem fonemas
com ditongos breves

cordas que seguramos na escalada
amparados por bambus ao vento
silêncios que contemplamos
no timbre do tempo

gisela rosa

12 janeiro, 2009

O poema é uma voz

Asas servem pra voar..., imagem de mama/margek, em
http://olhares.aeiou.pt/asas_servem_pra_voar_foto2456659.html



O poema é uma voz sentada à beira do rio
é o grito que soa nos sonhos de uma pedra
é o instante que se eleva e se apaga num momento
é um pássaro que pousa no teu ombro
é um eco do real no horizonte

O poema tem a rapidez de um animal aflito
irrigado pelo sangue vermelho que o anima
é fecundo e subtil como uma chama
acesa à beira do rio

Gisela Rosa, Vasos Comunicantes, p. 59, 2006

10 janeiro, 2009

Na janela do tempo

Desenho de António Ramos Rosa, folha branca A4, caneta tombo azul, 2005

Toute porte a pour gardien un mot (mot de passe, mot magique)

Edmond Jabès


A mulher que escutas na janela do tempo
lavra a dor com um vibrante sorriso interior
cantando a melodia do não dito
com a língua dos silêncios encontrada

a chama desse corpo aceitou o infinito azul
e renasceu com a magia de um templo antigo
quebrando os muros com a subtil harmonia dos anjos
e se nos seus dedos vislumbras o azul e em seus olhos uma ferida viva
dir-te-ei que o sorriso transmutou a dor ao encontrar-te
na unidade originária dos poemas
na bondade nua que nutres com as mãos

e a janela solitária entreaberta revelando o ar
é agora uma porta aberta para o mar
descobrindo a magia do tempo horizontal

Gisela Rosa, Vasos Comunicantes, diálogo poético com António Ramos Rosa, p. 21, 2006

09 janeiro, 2009

A renda do Sol

Pintura de Fátima Ramalho, 1988

O poema é uma teia
de que aranha de que areia
que se desfaz e se tece
e se inflecte como uma carícia
num rosto ambíguo de mulher e menina
e num sopro ascende a uma crista
e desce a um ninho de ervas
e cintila e se apaga
no vago olhar de uma página
no seu estuário absoluto

António Ramos Rosa, Vasos Comunicantes diálogo poético, p. 64, 2006



Ao ritmo da palavra
um raio de sol
acende uma teia branca
de linha em linha
deslizam as carícias
de um fogo que cintila na rede
sobre a dança de um corpo
que se configura e se desfaz
numa poeira cintilante

Gisela Ramos Rosa, Vasos Comunicantes, diálogo poético, p. 65, 2006

07 janeiro, 2009

Como um poema uma árvore

O Suporte é uma folha branca A4, caneta tombo "grená", o jogo de luzes
produziu o amarelo de fundo.
António Ramos Rosa, 2004



"...no silêncio da tua respiração,
como um poema uma árvore"

António Ramos Rosa

05 janeiro, 2009

A Voz Anónima


Poema a Voz Anónima de António Ramos Rosa, publicado na Revista Babilónia da Universidade Lusófona, 2003


Numa tarde em que visitei o poeta António Ramos Rosa, ele pediu-me que passasse a computador um poema que acabara de fazer pois queria muito enviá-lo para vários amigos. Cumpri a vontade de meu tio, de difundir a mensagem, o poema... fica aqui o manuscrito que acabei de encontrar para quem consiga decifrar os caracteres do poeta.

04 janeiro, 2009

Sopros da escrita


Desenho de António Ramos Rosa, 2006



Hei-de escalar o meu próprio coração
como se fosse uma montanha

Angelus Silesius

Os traços da escrita

L´un Pour L´autre, Les écrivains dessinent, Buchet *Chastel,
Les Cahiers déssines, Imec Éditeur


Para os que se interessam pelos traços que transvasam a escrita...

A Poética da Nuvem

Pintura de Isabel Ilhano, retrato de António Ramos Rosa

Eu sei que não a conheço. É nuvem,
poeira ou ferida ou esplendor em pulsação

António Ramos Rosa

03 janeiro, 2009

A matriz dos Sonhos

José Manuel Vilhena, em A Matriz dos Sonhos www.ruinologias.blogspot.com


nas mãos nasceram flores com o dia
e nelas escrevemos nomes com os dedos
com a seiva e o enredo do mar
deflagramos o sangue das rosas
na floresta de um tempo Aberto
de formas gravadas no fundo oceanico

ancoramos na língua com o sangue
de um Pacto que interpreta este efeito
ao pulsar

e desenhamos o movimento das veias
pelas estradas de uma cidade adormecida
que se eleva sem luzes ou simulacros
e nela encontramos os nossos ossos
ardósias convertidas em caracteres de afectos
cactos etéreos ou pedras sem corpo
que navegam como luas perdidas
nesta página

Gisela Ramos Rosa

As margens da escrita

Inscrição de António Ramos Rosa, publicada no livro Vasos Comunicantes, Diálogo poético do mesmo autor com Gisela Ramos Rosa - 2006

"Fascina-me a mão escrevendo, independentemente da língua ou da época, de entender o que está escrito ou de não entender nada."

José Manuel Vilhena, in http://ruinologias.blogspot.com/